Uma crônica de Luís Fernando Veríssimo

Literatura – A Arte da Crônica – Crônicas Comentadas

A Dividida
Luís Fernando Veríssimo  

Raimundo entrou firme, Luiz Carlos voou longe. A bola espirrou pela linha de fundo…

–          Pô, Mundo! – disse Luiz Carlos, do chão (1)

–          É pra homem – disse Raimundo. E em seguida foi pra cima do juiz, que tinha dado escanteio. – Bola prensada! Bola prensada!

No vestiário, Luiz Carlos mostrou a perna para o Raimundo (2)

– Olha o que você fez.

– É do jogo, meu.

– Do jogo, não. Tu é que é um animal.

A discussão continuou no carro. Luiz Carlos dava carona para o Raimundo (3)

Todas as terças, do condomínio para o ginásio, do ginásio para o condomínio.

Os dois se conheciam desde a adolescência. Eram sócios numa firma de engenharia. Eram cunhados. Moravam em casas pegadas, no mesmo condomínio.

Sempre jogavam no mesmo time. Naquela noite, Raimundo fora aliciado pelo outro time. Tinha fama de bom marcador. Viril, mas leal.

– Acho que vou ter que tirar uma radiografia.

– É, flor? (4)

– Pô, tu ainda brinca?

– Não foi nada. Eu entrei na bola.

– Entrou por cima.

– Na bola! Você é que entrou com pé de anjo (5)

– Olha o que o seu irmão me fez.

– O Mundo fez isso?

– Fez. Entrou por cima da bola. Não sei como eu não quebrei a perna.

– O time de vocês anda bom, hein? Um trombando no outro…

– Ele jogou no outro time. É um animal.

– O Mundo, um animal?

– Você nunca viu ele numa quadra. Se transforma.

– O Mundo é incapaz de matar uma mosca.

– Porque elas fazem o que eu não fiz. Pulam fora.

Na manhã seguinte, se encontraram, cada um saindo da sua casa. Luiz Carlos mancando, Raimundo caçoando.

– Pensei que você estivesse no hospital…

– Olha aqui, ó troglodita. Não fala comigo – Na UTI!

– Isto é o que dá jogar contra perna-de-pau.

– Ah é? Eu sou perna-de-pau? Eu sou viril, mas leal, se você quer saber.

Viril, mas leal.

– Viril, mas leal… Assassino, mas traiçoeiro, isso sim.

– Eu divido, meu irmão.

– E eu?!

– Você pipoca.

– Eu não acredito… Você entrou por cima da bola, Mundo.

Admite.

– Entrei na bola!

– Por cima!

A discussão continuou na reunião das quartas, na firma. Ficou tão violenta que a reunião teve que ser suspensa. Decisões importantes foram adiadas porque os dois não quiseram mais se falar, naquele dia ou no resto da semana. E no sábado, pela primeira vez desde que tinham se mudado para o condomínio, as duas famílias não fizeram o churrasco juntas. Cada um fez na sua churrasqueira. E proibiu a mulher e os filhos de se aproximar da mulher e dos filhos do outro.

No domingo, as mulheres decidiram que aquilo já fora longe demais.

Convenceram os dois a sentar para conversar. Como amigos. Como parentes.

Como sócios. Como adultos.

– Foi inveja – disse o Raimundo.

– O quê?!

– Deixa o Mundo falar, Luiz Carlos – pediu a mulher dele. – Depois você fala.

O Raimundo contou que tinha sido convocado para reforçar o outro time, que sempre perdia nos jogos das terças. Justamente porque não tinha um jogador como ele. Bom marcador. Viril, mas leal. E o Luiz Carlos ficara com ciúmes por não ter sido o escolhido. Porque o Luiz Carlos, para quem não soubesse, era um ciscador, dado a brilhaturas inúteis, ao contrário dele, que entrava para decidir jogos. Tanto que o seu time fora o vencedor, naquela noite. Por ciúmes, o Luiz Carlos tentara acertá-lo numa bola dividida, e ele apenas se defendera. Por ser apenas um ciscador inconseqüente, e não saber dividir bola, levara a pior.

Luiz Carlos estava com o rosto escondido entre as mãos, como que envergonhado pelo outro. Levantou a cabeça quando Raimundo acabou de apresentar o seu lado.

– Posso falar? Você já acabou de mentir?

– Fala.

– Dividir bola é uma coisa. Entrar com o pé por cima da bola é outra. Não é uma questão de estilo. É uma questão de ter ou não ter caráter.

– É uma questão de ser ou não ser veado.

– Veado não!

– Sabe de uma coisa? A firma só foi pra frente nestes anos todos porque eu estava lá pra dividir todas. Eu dividia enquanto você pipoqueava.

– “Pipoqueava”, não!

A reunião de paz terminou em guerra declarada.

Na firma, a situação ficou insustentável. Negócios foram perdidos porque os dois se recusavam a se encontrar. Acabaram desfazendo a sociedade (6)

Abandonaram o condomínio. Perderam dinheiro. Os dois, aliás, estão muito mal de vida. Mas nenhuma reconciliação é possível. Segundo Raimundo, no mundo há os que dividem a bola e há os que não dividem. Segundo Luiz Carlos, o mundo está dividido entre os que vão na bola e os que vão com o pé por cima (7) E quando as mulheres perguntaram como os dois tinham vivido e trabalhado juntos em paz durante tanto tempo, os dois responderam a mesma coisa. Era porque nunca antes tinham jogado um contra o outro.

texto extraído do jornal O Estado de São Paulo – Jun/2001 – A reprodução deste texto tem fins exclusivamente didáticos.

 Notas: (1)  Muitos diálogos – (2)  Personagens de ficção – (3)  Frases curtas e diretas. Telegráficas – (4)  Humor – (5)  Linguagem coloquial – (6)  Exagero meio non-sense em favor do humor – (7)  Filosofia do dia-a-dia. Metáfora para conceitos mais profundos e complexos.

Comentários: As crônicas de Veríssimo têm formato de ficção. São uma espécie de mini-contos, histórias breves com muitos diálogos e personagens em situações totalmente inusitadas. Usa muita criatividade para criar histórias que o conduzem à críticas objetivas aos costumes, política, relacionamentos, etc. Sua marca registrada é o humor. Exagera situações, às vezes criando um clima de non-sense, em favor do humor do texto. Recorre à citações, filósofos, etc. Seus temas prediletos são o ser humano e seus hábitos, em especial os relacionamentos interpessoais, casamentos, sociedades, etc. Capta pequenos flagrantes de que foi ou é notícia e discorre a respeito, emitindo opinião. (Por Alexandre F. Gennari)

Este texto foi elaborado à partir de estudos sobre uma seleção de crônicas publicas pelo autor no jornal O Estado de São Paulo no ano 2000.

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Uma resposta para Uma crônica de Luís Fernando Veríssimo

  1. isabela disse:

    que texto quer dizer cronica precisei dele para um trabalho de portugues foi bom

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