Um nome com agá

Alexandre Gennari – Crônicas – Vida de Escritor

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Não era qualquer Eliana. Era Heliana com agá. Além disso era minha Heliana dentre tantas outras Elianas sem agá que andavam por aí. Minha, não, ela tinha namorado. Um cara mais velho que tinha carro e um nome desimportante sem agá. Eu era um pirralho cheio de espinhas e calos nas mãos. A maioria deles em homenagem à minha Heliana. Minha, não. Dele. Mas na hora sagrada das homenagens apaixonadas e solitárias que prestava a ela no banheiro, ela era minha. Nos meus sonhos também. Nessa época fui ao Rio de trem com meu pai. Havia o Expresso de Prata que saía da Estação da Luz e rodava a noite toda pra chegar ao Rio de manhã cedinho. Havia vagão-restaurante, cabines privativas com banheiro, janelas enormes, corredores imensos, um luxo. Dormi na cama de cima do beliche e sonhei com ela, Heliana. Com o balanço do trem, gozei na calça do pijama, o melhor sonho da minha vida, deixou em mim uma melancolia boa (e eterna) de viagens de trem. Que pena que não existem mais. O Brasil não gosta de trens.

Outra vez fomos ao cinema assistir a “Dona Flor e seus dois maridos”, da obra de Jorge Amado, o protagonista é o malandro Vadinho, personagem no qual eu me amarro, filho de Exu que mesmo depois de morto rema pro lado que lhe dá na telha. Anos 1970. A censura bombando. Ver uma mulher nua era a glória, uma cena de sexo então… Éramos um grupo grande, do colégio, burlamos as carteiras de identidade. Consegui me sentar ao lado dela depois de alguns empurrões e de quase trocar tapas com colegas de classe. Assisti José Wilker (numa atuação inesquecível) e Sônia Braga (no auge de sua beleza e gostosura) transarem loucamente, com meu braço roçando o braço dela o filme todo. Fui apaixonado por Heliana durante a sétima e a oitava séries inteirinhas. Dois longos e intermináveis anos pra quem tem treze, catorze anos. A cada vez que pedia pra namorar com ela levava um fora. Levava cêrca de seis meses pra tomar coragem outra vez, chegar de novo, e ouvir outro não. Assim, foram dois por ano (em média), sempre muito carinhosos, cuidadosos. Com jeitinho ela explicava que gostava de mim, mas tinha namorado. Se não fosse por isso… Assim, eu torcia pro cara mudar de cidade, enjoar dela (ou ela dele) ou, se não tivesse outro jeito, pra ele morrer mesmo. Ele não morreu. Mas nunca desisti dela. No começo sofria como um poeta romântico. Depois virou amor platônico, aprendi a viver bem com ele (mais ou menos bem), namorava outras garotas, ela se tornou um doce dentro do baleiro em cima do balcão da vendinha e eu, criança, não conseguia alcançar. Eu olhava: Uau! E seguia a vida. Só desencanei quando mudei de escola.

Depois de algum tempo descobri que o mundo dá voltas, embora o professor mal-humorado de física insistisse nisso fazia tempo. Não sei. Reencontrei minha Heliana com agá, ela tinha dado (ou levado) uma bota do namorado mais velho. Eu tinha crescido, não tinha mais tantas espinhas, não era mais imberbe, já não a homenageava no banheiro, tinha perdido a virgindade. Meu pai me emprestava o carro de vez em quando. Um Maverick amarelo, seis canecos. Ficamos juntos e me lembro bem do primeiro beijo, das nossas línguas se enroscando e da minha sensação de que estava sonhando. Beijei de olhos abertos pra ter certeza que era verdade. Mas ao se tornar real, o beijo deixou de ser fantasia, virou coisa. Nosso momento havia passado.

Por isso, até hoje adoro Dona Flor, o Wilker, a Sônia Braga, trens de passageiros e Mavericks. Amarelos ou não. Gosto de nomes com agá também. Lembrando do agá de Heliana, me lembrei que um dia eu já soube esperar. Decidi esperar por ela. E enquanto espero, escrevo. Escrevo aquilo que eu não sei dizer.

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