Uma crônica de Paulo Mendes Campos

Literatura – A Arte da Crônica – Crônicas Comentadas 

Brasil brasileiro
Paulo Mendes Campos  

Uma vez, numa recepção da nossa embaixada em Londres, uma dama inglesa, depois de ouvir Aquarela do Brasil, estranhou ironicamente a associação dos termos “Brasil brasileiro”. A França é francesa, dizia, a Inglaterra é inglesa, o Afeganistão é afegane, sem que se precise dizer… Minha senhora, respondeu-lhe alguém, é que o Brasil é muito brasileiro, é o único país brasileiro do mundo, e só quem nos conheça bem será capaz de entender isso (1)…

Em fase de transição econômica há alguns anos, em fase de reforma desde a mudança do governo, às vezes penso que o Brasil corre o risco de se tornar pouco brasileiro em alguns sintomas essenciais da nossa maneira coletiva de ser. Nem sempre é fácil distinguir as virtudes e os defeitos tipicamente brasileiros, havendo possibilidade de muitos erros de conceituação.

Dentro da relatividade histórica, Dom Pedro I foi muito brasileiro; Dom Pedro II igualmente. Pois eu acho que o primeiro possuía vários defeitos essenciais ao caráter brasileiro, enquanto o segundo cultivava virtudes que podiam ser banidas da nossa formação, virtudes bastante monótonas ou bobocas.

A impontualidade em si é um mal; no Brasil, entretanto, ela é necessária, uma defesa contra o clima e as melancolias do subdesenvolvimento. Deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é outro demérito que não se pode extinguir da alma nacional.

Uma finta de Garrincha, uma cabeçada de Pelé, uma folha-seca de Didi são parábolas perfeitas do comportamento brasileiro diante dos problemas da existência. Eles maliciam, eles inventam, eles dão um jeitinho (2). Já cuspir no chão e insultar as formas elementares da higiene são também constantes brasileiras, mas devem ser combatidas furiosamente.

Ter terror à pena de morte é um sentimentalismo brasileiro da mais fina intuição progressista; cultivar o entreguismo da saudade já me parece uma capitulação inútil.

“Deixa isso pra lá”é uma simpática fórmula do perdão nacional; já o “rouba mas faz”é uma ignorância vertiginosa. Valorizar em partes iguais a ação e o devaneio (dum lado o trabalho, do outro sombra e água fresca) é uma intuição brasileira que promete uma síntese do dinamismo do Ocidente e da contemplação oriental.

O andar da mulher brasileira, como o café, é uma das grandes riquezas pátrias. Aliás, o café chegou até nós muito brasileiramente: o sargento Palheta recebeu gentilmente as mudas das mãos da condessa d’Orvilliers, mulher do governador da Guiana Francesa. “Nous étions doublement cocus!”, exclamou com espírito um escritor francês.

Mas o ostensivo e verboso donjuanismo brasileiro, sobretudo no exterior, é uma praga. Achar-se irresistível é uma das constantes mais antipáticas do homem verde-e-amarelo. O relato impudente de façanhas amorosas, a mitomania erótica, o desrespeito agressivo à dignidade da mulher são desgraçadamente coisas muito brasileiras. A instituição do “faixa”, do “meu chapa”, é cem por cento brasileira, desde que seja gratuita; o detestável tráfico de influência não é nosso. Dar um jeito é bom; dar o golpe é mau.

A sagacidade de Minas, a fidalguia do Sul, a combatividade do Nordeste são características brasileiras; o dinamismo organizado de São Paulo não é tão nosso assim, mas é necessário. Para Capistrano de Abreu, o jaburu simbolizara o Brasil; São Paulo foi o primeiro estado a superar a tristonha fase do jaburu. E Macunaíma ainda representa o brasileiro? E Jeca Tatuzinho? O tempo passou: Macunaíma comprou naturalmente uma lambreta, mas, em compensação, estuda economia ou física nuclear; os filhos de Jeca Tatuzinho são hoje playboys, contrabandistas ou industriais, nesta imensa misturada contraditória que é o Brasil.

Resta por fim como espantalho gritantemente brasileiro, vergonhosamente brasileiro, o pobre, o nosso compatriota de pé no chão, destroçado pelos parasitas, cegado pelo tracoma, morando em casebres de barro, palafitas, mocambos, favelas, coberto de feridas, analfabeto, mal-alimentado, vestido de farrapos, pobre criatura humana, pobre bicho humano, pobre coisa humana, pobre brasileiro humano (3).

texto extraído do livro “Brasil brasileiro” – A reprodução deste texto tem fins exclusivamente didáticos.

Notas: (1) Vai além das aparências para buscar a essência, recriando aquilo que vê/ouve. Reflete sobre a relação entre os fatos e as pessoas – (2) Caçador de imagens – (3) A poesia é o suporte das crônicas do autor que se aproximam do poema em prosa. Ao buscar a essência daquilo que vê, alcança a dimensão da poesia.  

Comentários:Ao olhar para a cidade, o cronista vai além das aparências, do palpável, e tenta buscar sua essência recriando aquilo que vê. Mendes Campos é um caçador de imagens agredido pelo tédio urbano e consolado pelas lembranças da infância, seu paraíso perdido, um espaço onde a realidade se manifeste de uma forma prazerosa. Há aí um toque de nostalgia, as lembranças da cidadezinha do interior com gosto de infância. Essa nostalgia faz de Mendes Campos um narrador-poeta e como tal a poesia torna-se o suporte das crônicas do autor, aproximando seus textos do poema em prosa. Ao buscar a essência daquilo que vê é que alcança essa poesia. Se a função do jornalismo é mostrar o mundo ao leitor, a função do cronista é ir mais longe, além do factual, aprofundar a notícia e refletir sobre a relação entre os fatos e as pessoas. Em algumas crônicas usa como recurso a descrição física das personagens, induzindo o leitor a desenhá-las na mente, e só então introduz as características emocionais. Outras vezes tira de cena a figura do narrador e transfere a primeira pessoa para uma personagem, uma mulher, por exemplo. (Por Alexandre F. Gennari)

Fonte: Este texto foi elaborado à partir dos estudos de Jorge de Sá sobre a crônica como gênero literário, parte integrante do livro “A Crônica” – Editora Ática – Série Princípios.

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Uma resposta para Uma crônica de Paulo Mendes Campos

  1. debora braga pinheiro disse:

    gosto de todas asss coisas q paulo mendes campos fez eu gosto muitoooooooooo!!!!!!!!!!

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