Dublinenses

Literatura – Cultura – Literatura Recomendada

 

James Joyce (Civilização Brasileira – 2002/1914 – 217 págs. – Contos) 

Sinopse: Coletânea de contos de um dos maiores contistas de todos os tempos, um escritor que revolucionou a narrativa moderna. Destaque para os relatos “Eveline”, “A pensão”, “Contrapartida”, “Um caso doloroso” e “Os mortos”. Este último, apesar do tamanho (44 págs.), tem um desfecho magistral.

Comentários: Qual será o mistério que transforma homens em mitos? Que forças insondáveis são capazes de guindar um artista ao patamar de mito? Qualidade é um pressuposto. Mas não é tudo. A capacidade de antecipar tendências, a ousadia de romper com os padrões estabelecidos? Sorte? Talvez uma pitada… Seja qual for o mistério, o fato é que James Joyce é um mito da literatura mundial. Curiosamente, nada sobre sua vida pessoal evidencia o porquê disso.  Joyce jamais interpretou um personagem de si mesmo, como os aventureiros Hemingway e Jack London, o recluso J.D. Sallinger ou o performático Oscar Wilde. Irlandês, nascido em Dublin em 1882, Joyce teve uma vida comum, banal até. Como escritor, foi um dos precursores do “fluxo de consciência”, estilo narrativo no qual mais importante do que acontecimentos exteriores são os movimentos interiores do pensamento, os aspectos psicológicos dos personagens. Embora seu romance “Ulisses” seja considerado a pedra fundamental da história do “stream of conciousness”, este recurso está presente também em seus contos. Joyce é igualmente um grande contista, referência obrigatória para os estudiosos da narrativa curta. No relato “Os mortos”, por exemplo, o autor compõe uma belíssima malha de sentimentos e sensações, sem que nada de excepcional aconteça exteriormente, exceto a neve que cai insistentemente “em todas as partes da sombria planície central, tombando mansa sobre o Bog of Allen e nas ondas escuras do cemitério abandonado onde jazia Michel Furey”. Entre outras sutilezas, percebemos como cada um de nós vivencia um mesmo momento de formas totalmente diferentes. Subitamente, marido e mulher podem não passar de perfeitos estranhos, mesmo resguardados debaixo de uma pseudo-intimidade criada ao longo de anos.  Num piscar de olhos percebem-se vítimas frágeis de uma comunicação impossível, já que olham e vivenciam o mundo sob prismas extremamente distintos. Este relato é talvez o melhor de “Dublinenses”, apesar de suas 44 páginas e de uma primeira parte na qual o autor alonga-se demais descrevendo uma festa. Já a continuação desta festa, a segunda parte da narrativa, compensa com folgas as gorduras da primeira. Os contos de Joyce têm características marcantes. Alguns deles acabam subitamente. Outros, simplesmente não têm final. E se não há final é porque não houve começo. Houve apenas um recorte do cotidiano, uma fotografia, um flagrante. Habilmente, o autor pinça momentos do dia-a-dia de personagens típicos da Dublin da primeira metade do século passado, e narra fatos e impressões do que sentem e pensam. Mas isso não é dito claramente, os estados de espírito são construídos sutilmente, sugeridos, nunca escancarados. Saltam aos olhos mais atentos, vindos das entrelinhas da narrativa e das reações imprevisíveis de seus protagonistas. De um jeito ou de outro, o mistério que envolve homens e mitos vai continuar. É impossível precisar o que fez de James Joyce um mito, mas lendo “Dublinenses” fica claro que não poderia ser diferente.

Trecho: “Gretta logo adormeceu. Gabriel debruçou-se na cômoda e contemplou sem ressentimento os seus cabelos emaranhados, a boca entreaberta, ouvindo-lhe a profunda respiração. Então havia esse romance em sua vida, um homem morrera por ela. Quase já não o magoava pensar no pouco que ele, marido, representava em sua vida (…) O ar gélido do quarto fê-lo estremecer. Deslizou cautelosamente sob as cobertas e acomodou-se do lado da esposa. Um por um, estavam todos se transformando em sombras. Seria melhor precipitar-se na morte no apogeu de uma paixão do que extinguir-se e murchar lentamente com a velhice. Pensou como aquela mulher, adormecida a seu lado, ocultara por tantos anos a imagem de seu amado a afirmar-lhe que não queria viver. Pranto generoso invadiu-lhe os olhos. Nunca se sentira assim por uma mulher, mas sabia que isso era amor. As lágrimas cresceram nos olhos e ele imaginou ver na penumbra do quarto um jovem parado sob uma árvore encharcada. Outras formas pairavam ali. Sua alma acercava-se da região habitada pela vasta legião dos mortos. Pressentia, nas não podia apreender suas existências vacilantes e incertas. Ele próprio dissolvia-se num mundo cinzento e incorpóreo. O mundo real, sólido, em que os mortos tinham vivido e edificado, desagregava-se. Leves batidas na vidraça fizeram-no voltar para a janela. A neve voltava a cair (…) Caía em todas as partes da sombria planície central, nas montanhas sem árvores, tombando mansa sobre o Bog of Allen e, mais para o oeste, nas ondas escuras do cemitério abandonado onde jazia Michel Furey. Amontoava-se nas cruzes tortas e nas lápides, nas hastes do pequeno portão, nos espinhos estéreis. Sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do universo, cair brandamente, como se lhes descesse a hora final, sobre todos os vivos e todos os mortos.”

Por: Alexandre Gennari

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