Meus dez mais (livros)

Alexandre Gennari – Crônicas – Literatura 

    

Josélia Aguiar é editora do blog Painel das letras. Ela teve a (boa) ideia de propor a alguns escritores brasileiros que listassem os dez livros mais importantes de suas vidas. Não somente clássicos, mas aqueles livros que, por razões muito mais afetivas do que críticas ou históricas, nos acompanham pro resto de nossas vidas. Milton Hatoum, Moacyr Scliar, Michael Laub, Cristóvão Tezza e muitos outros escritores, fizeram suas listinhas.

Segundo o professor Gabriel Perissé, “experimentar o prazer solitário de ler o que pessoas mais inteligentes do que nós recomendam é seguir o conselho de Ítalo Calvino que insistia na necessidade de procurarmos os nossos clássicos pessoais, livros que lemos e relemos por amor e prazer (…) o importante é ter a coragem de investir tempo.”

O WebWritersBrasil fez algo parecido com relação a filmes, depois de uma crônica que eu escrevi confessando meus doze filmes prediletos (http://t.co/OO8ZMIB). Na crônica eu dizia que “esse negócio de fazer lista dos melhores isso, melhores aquilo, me lembra o filme ‘Alta Fidelidade’.

Entre as pessoas que mandaram suas listas a principal reclamação foi: ‘Só doze?!’ Vale a pena pensar na sua lista de melhores livros e, se quiser, você pode compartilhá-la com o Webwritersbrasil escrevendo no campo “deixe uma resposta” no final desse texto.  Aqui vai a minha lista (Só dez?!):

A pista de gelo (Roberto Bolaño – Companhia das Letras – 197 págs. – 2003): Três personagens se alternam no relato de fatos incomuns que acontecem no verão em uma cidadezinha praiana nas imediações de Barcelona. As falas dos três narradores são como depoimentos de um documentário que, depois de devidamente editados, se encaixam para contar a história de um assassinato misterioso (de início não se sabe nem quem é a vítima), que prende o leitor desde a primeira página. Mas para Bolaño, o assassinato é o que menos importa, trata-se apenas de pano de fundo para a verdadeira história, um recorte da vida de seus personagens, tipos densos, alguns marginais, desgarrados da sociedade, cujas vidas são contadas por meio de fragmentos precisos e significativos de suas trajetórias. Cada fato, cada detalhe, tem força e significação, a forma que o autor dá ao texto impressiona, talvez o poeta que ele foi um dia contribua de forma decisiva para a criação de períodos tão bem elaborados. Com absoluta economia de recursos, digna dos grandes contistas e webwriters, Bolaño constrói uma imagem forte e poética da adolescência, uma época na qual acreditamos que nossos sonhos são possibilidades de fato, um tempo no qual cada acontecimento vai marcar nossas vidas de forma indelével no futuro, pontuar nossas lembranças na velhice e nossa saudade secreta quando adultos.

Dois irmãos (Milton Hatoum – Companhia das Letras – 266 págs. – 2002 ): Ao contar a saga de uma família de imigrantes libaneses que vive em Manaus, o autor faz uma devassa em seu núcleo onde prevalecem paixões desmedidas, às vezes destrutivas, sentimentos fortes, polarizados, egoístas, muitas vezes insanos, violentos e até impróprios, incestuosos… Arrebatadores! Uma história aparentemente banal torna-se a odisséia de uma família singular e comum ao mesmo tempo. Como as nossas próprias famílias, tão redundantes e tão diferentes, tão heróicas e tão vulgares. Neste caldeirão, sempre prestes a transbordar, estão Caim e Abel, Édipo e Jocasta e até Romeu, que aqui, tem sua Julieta usurpada pelos filhos. Mas a relação mais intrigante é, sem dúvida, a de Zana, a mãe dos gêmeos, com Omar, o filho caçula. Nas palavras do autor “Parece que o diabo torce para que uma mãe escolha um filho“. Uma relação que beira o absurdo, um abismo implacável que à todos engolirá.

O Deus das pequenas coisas (Arundathi Roy – Companhia das Letras – 342 págs – 1997): Mais uma vez, a saga de uma família (aparentemente normal) é o fio condutor deste relato. E as pequenas coisas, os fatos aparentemente corriqueiros, cotidianos, sem importância em nossas misteriosas vidas, ganham o peso da deidade que realmente são. A autora desvenda como cada pequeno fato de nossas vidas (sobretudo na infância) se transformarão em uma imensa colcha de retalhos que chamaremos de vida, como cada pequena escolha em nosso dia a dia terá influência definitiva no destino que construímos ou que será construído em torno de nós pelas pequenas – e grandes – escolhas alheias, pelas coisas nas vidas das pessoas e da sociedade que nos cercam. Sobretudo na sociedade da Índia, onde acontece a ação, suas castas e tradições milenares. Mas o brilho deste livro (como o brilho de um pequeno deus errante) está mesmo nas pequenas coisas, em cada palavra, em cada frase, em cada parágrafo, tão bem elaborados, tão belos, tão cheios de sentimentos e significados (explícitos e implícitos). Um livro com gosto de infância, de família e de tristeza. Com gosto de inexplicável e de inesquecível.

São Bernardo (Graciliano Ramos – Editora Record – 188 págs. – 1934): Apesar de “Vidas Secas” ser seu livro mais famoso, é em “São Bernardo” que Graciliano Ramos, o mestre da concisão e da objetividade, atinge o ápice na arte de autopsiar seus personagens ainda vivos e retirar de dentro deles, do fundo de suas entranhas, tudo o que há de mais humano neles (e em nós) e de subumano também, de animal, de id, de perverso, de desstrutivo e autodestrutivo. Em torno de um protagonista rude, o autor constrói uma história de ascensão social e de um relacionamento entre homem e mulher ou antes, de um casamento trágico e contraditório que traz em seu bojo questões sociais e políticas do Brasil da época, do nordeste, da composição da nossa sociedade e do papel da mulher nessa sociedade. Mais do que aquilo que é dito, a grande história está justamente naquilo que o autor deixa de dizer, em tudo aquilo que ele apenas sugere. E que nos entontece por acharmos que compreendemos tudo (mas não temos plena certeza), tanto no livro quanto na vida.

O grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald – Editora Record – 200 págs. – 1925): Uma das obras mais importantes da literatura mundial em todos os tempos, a narrativa prima pela poderosa dose de crítica social à emergente sociedade estadunidense, sobretudo a elite americana, os nascidos em berços de ouro com sobrenomes de grife. Ao enfocar essa faixa da sociedade contemporânea, Fitzgerald acaba nos mostrando o quanto a vida em sociedade pode ser hipócrita e o quanto nós mesmos, sem nos darmos conta, podemos ser hipócritas também.

Ensaio sobre a cegueira (José Saramago – Companhia das Letras – 310 págs. – 1995): Alguma vez você parou para pensar como seria se fosse cego? E se isso acontecesse de uma hora pra outra, sem qualquer sintoma ou antecedente? Esse é o delírio de José Saramago para nos fazer refletir sobre a visão, a cegueira e, principalmente, sobre a cegueira da visão. Afinal, o que está por trás daquilo que captam os olhos de ver? Tudo aquilo que não nos damos conta, cegos pelo sentido do olhar, exclusivamente material. O final do Ensaio é surpreendente, mas generoso, à medida que redime o homem de seu olhar cego, prometendo-lhe uma nova chance. Aproveitemos e, “se pudermos olhar, vejamos e se pudermos ver, reparemos”.

Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Marquez – Editora Record – 394 págs. – 1967): Você se lembra das histórias que sua avó contava quando você era criança? Histórias assim são o ponto de partida de García Márquez para compor o universo fantástico de Cem Anos de Solidão. Reminiscências da infância e passagens que misturam o imaginário da criança à dura realidade do adulto. Um caldeirão criado com maestria pelo autor, o grande nome do realismo mágico. É misturando realidade e magia de uma forma inacreditavelmente convincente que Márquez faz emergir deste caldeirão a melhor mistura já criada pela literatura latina. Neste caldeirão fervilham temas diversos, contemporâneos, fascinantes. É aí que encontraremos, mais uma vez, todas as paixões, mistérios e contradições humanas.

A ilha do tesouro (Robert Louis Stevenson – Editora Record – 366 págs. – 1883): Ler A Ilha do Tesouro aos 10 anos é como descobrir a América. Neste caso o continente se chama Literatura. O mundo dos piratas, dos navios e dos mares já é um universo fascinante por si só, mas da maneira que foi mostrado por Stevenson, tornou-se parte do imaginário de gerações e gerações desde que foi escrito e publicado em 1883. Este é o livro que fez com que eu me apaixonasse (pelo resto da vida) por livros. Foi o primeiro livro que me fez virar uma noite lendo (incapaz de deixá-lo de lado), uma sensação maravilhosa de absoluto espanto, de êxtase, que se repete até hoje. Felizmente!

Os cem melhores contos brasileiros do século (Seleção: Ítalo Moriconi – Editora Objetiva – 609 págs – 2000): Ler Os cem melhores contos brasileiros do século é como entrar em uma luta perdida, já que cada capítulo pretende vencer o leitor por nocaute, parafraseando a definição de conto de Júlio Cortázar. Mesmo cem vezes nocauteado, o único vencedor neste embate é o próprio leitor. Há verdadeiras preciosidades no livro, narrativas belíssimas, algumas tristes, contundentes, outras irônicas, cínicas, metafóricas. Algumas engajadas, outras descompromissadas. Enfim, Os cem melhores é uma colcha de retalhos imperdível, uma edição histórica sobre a trajetória do conto no Brasil e uma elegia ao gênero. O melhor a fazer é entregar os pontos e se deixar nocautear por esta coletânea, deixando-se vencer pelo gênero conto, toda a sua força e pegada.

O Mundo de Sofia (Jostein Gaarder – Companhia das Letras – 547 págs.): Aos leigos e desavisados, filosofia sempre surge como uma tema complexo, difícil e direcionado apenas a filósofos, a iniciados, a intelectuais, acadêmicos, gente que fala difícil e que é, certamente, muito mais inteligente do que nós, pobres mortais. O mundo de Sofia tem o mérito de romper com crenças como estas e mostrar que a filosofia nada mais é do que a capacidade e a necessidade (praticamente inerentes ao ser humano ao longo da História) de questionar quem somos, de onde viemos e para onde vamos. E sobretudo, por que somos, viemos e vamos. Inclusive uma criança (pré adolescente) pode perguntar-se a respeito. É o que acontece na narrativa de Gaarder, na qual a jovem Sofia começa a ter aulas particulares de filosofia. Assim, podemos comparar O Mundo de Sofia a um curso simplificado de filosofia para jovens e que usa uma linguagem que o jovem pode compreender facilmente (compreensível, portanto, para leigos também). E descobrir O mundo da (filo) Sofia pode ser uma das maiores descobertas de nossas vidas, pois ela vai muito além das religiões e nos torna capazes de Pensar de verdade e de crer, sem dogmas e, portanto, sem fanatismo.

Por Alexandre Gennari

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8 respostas para Meus dez mais (livros)

  1. Maria Cristina disse:

    só dez? haha

  2. ana gennari disse:

    Vou começar por aqui…
    O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde)
    Cem anos de solidão (Gabriel G. Marquez)
    Conversa na catedral (Mario V. Llosa)
    Dois Irmãos (Milton Hatoun)
    Sinais de Vida no Planeta Minas (F. Gabeira)
    Ainda (Pablo Neruda)
    Tanto faz (Reinaldo Morais)
    A Casa dos Budas Ditosos (João Ubaldo Ribeiro)
    O auto da barca do Inferno (Gil Vicente)
    O livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr (Millôr Fernandes)

  3. Cristina disse:

    Ótima seleção !!! A minha seria muito parecida … com umas duas mudanças. entre elas, eu acrescentaria Grande Sertão veredas do Guimarães Rosa, e Dom Casmuro do grande Machado de Assis … mas não sei o que tirar … pode ficar com 12 ???

  4. Maria Cristina disse:

    ano passado a minha amiga Deborah pediu uma lista de 15.
    mandei de cara a Bíblia. ela: “vem cá, colocar a Bíblia (e seus 66 livros), dentro da lista “dos 15 mais” é pura falcatrua! eu tive que escolher apenas dois. humpf!”

    ok, Bíblia, você tem 66 livros e além do mais é hour concour!

    taí meus 10 “sob um critério muito mais afetivo do que crítico ou histórico”

    Adeus às armas – Ernest Hemingway

    Dom Casmurro – Machado de Assis

    O jogo da amarelinha – Julio Cortazar (o título original “Rayuela”, dito por um argentino (original) dá mais vontade de ler!)

    Ficções – Jorge Luis Borges

    Contos da palma da mão – Yasunari Kawabata

    A trégua – Mario Benedetti

    Por quem os sinos dobram – Ernest Hemingway

    Ooó do vovô! Correspondência de João Guimarães Rosa, vovô Joãozinho, com Vera e Beatriz Helena Tess de setembro de 1966 a novembro de 1967 – Editora PUC Minas eeeêêêêê

    O meu pé de laranja lima – José Mauro de Vasconcelos

    Tutameia – Guimarães Rosa

    beijos!

  5. Ale Gennari disse:

    Valeria Novaes (via Facebook)
    ‎1. Olhai is Lirios do Campo – (Erico Verissimo)
    2. O Cortiço- (Aluizio Azevedo)
    3. A Ira dos Anjos- (Sidney Sheldon)
    4. Os Tres Mosqueteiros (amei) -( Alxandre Dumas)
    5. Caninos Brancos- (Jack London)
    …6. Cristiane F. (nao sei o autor)
    7. As Sandalias do Pescador
    8 As Meninas (Ligia Fagundes Teles)- marcou uma época
    9. O Outro Lado da Meia Noite (Sidney Sheldon)
    10. A Escrava Isaura- (Bernardo Guimaraes)

    Nao sei se são os melhores mas com toda certeza marcaram a minha vida.

  6. joão paulo aiex alves disse:

    1- O Poderoso Chefão
    2- Incidente em Antares
    3- Viagem ao Centro da Terra
    4- Os 12 Trabalhos de Hércules
    5- Os Meninos da Rua Paulo
    6- As Aventuras de Tom Sawyer
    7- Feliz Ano Velho
    8- O Idiota
    9- Eramos Seis
    10- Gabriela

  7. Maria Cristina disse:

    Por que ler os clássicos

    “a única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos”. (Ítalo Calvino)

    beijo e bom dia!

  8. Teresa Cristina do nascimento Bendini disse:

    1- A Metamorfose, (káfka)
    2- Memórias Póstumas de Brás Cubas (M.Assis)
    3- Nêmesis (Philip Roth)
    4 – Primeiras Histórias (Guimarães Rosa)
    5 – A Obscena Senhora D (Hilda Hilst)
    6 – Paixão segundo GH (Clarice Lispector)
    7 – Amar se aprende amando (Carlos Drummond de Andrade)
    8 – Urupês (Monteiro Lobato)
    9 – Os Miseráveis (Víctor Hugo)
    10- Os Sertões (Euclides da Cunha) Esse nos remete a Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo que ocorre em agosto. Estou finalizando o livro, fantástico. Uma lição de brasilidade.

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