O Cabeça de Abóbora

Alex Gennari – Contos Infantis

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 Tem gente que insiste em dizer que eu não existo. Mas eu não ligo. Quando eu olho no espelho, vejo meu rosto negro como o céu de noite refletido nele. Se eu não existisse não veria nada. Quando eu aperto com força o dedão do meu único pé, dói pra caramba. Se eu não existisse, como é que o dedão ia doer desse jeito? É por isso que eu tenho certeza que eu existo.

 Mas tem gente que não pensa assim. Outro dia, eu estava indo pescar quando encontrei com o Raloim, o cabeça de abóbora. Era um dia de inverno e por isso eu trazia meu gorrinho vermelho bem enfiado na cabeça, cobrindo até minhas orelhas. Falei pra ele: “Bom dia”. Ele ficou me olhando com aquele cabeção de abóbora como se nunca tivesse visto um saci e disse: “Eu não falo com sacis”. Que caboclo mal educado, eu pensei. E disse: “Será que eu posso saber por quê?” “Porque saci não existe”, ele respondeu, como se Raloim cabeça de abóbora existisse fora das historinhas. E completou. “Pelo menos no meu país saci não existe”. Eu pensei, pensei, e disse: “Se não existe, por que é que você está falando comigo?” Aí foi a vez dele ficar pensando. Como não achou uma resposta virou as costas e saiu andando.

O tempo passou, chegou a primavera e a mata ficou repleta de flores.  Frutas saborosas amadureciam nas árvores: amoras, jabuticabas, goiabas, bananas. Os passarinhos: sabiás, bem-te-vis, pica-paus, canarinhos; colocaram seus babadores no pescoço pra não sujar suas penas coloridas: amarelas, verdes, vermelhas, azuis; e foram pra mata comer as frutas. As abóboras também amadureceram. A cabeça do Raloim ficou madurinha, no ponto pra vó Maria (Saci também tem vó, sabia?) fazer um delicioso doce de abóbora pra eu comer com queijo branco.

Eu vinha voltando da pescaria quando vi os passarinhos bicando o cabeção de abóbora do Raloim. Corri na direção dele. Corri, não, saltei, porque não dá pra correr com uma perna só. E falei pros passarinhos: “Para com isso, gente, ele é um ser humano e merece respeito!” Os pássaros pararam e ficaram olhando pra mim. Até que um pardal falou: “Ser humano? Isso é uma abóbora!” E todos eles caíram na risada. Quá-quá-quá. Eu tive vontade de rir também, mas fiquei bem sério e falei: “Nada disso, ele não é só uma abóbora é um Raloim cabeça de abóbora.” E os pássaros: “Ah, saci! Raloim cabeça de abóbora só existe em histórias lá nos Estados Unidos.” Então eu chamei o Raloim. Ele se aproximou devagar, com as mãozinhas tentando cobrir o cabeção. E eu disse: “Fala com eles.” E o Raloim cabeça de abóbora disse: “Oi, gente.” E um tico-tico falou: “Olha só, passarada, a abóbora fala mesmo! Não é um ser humano como o saci disse, mas é um Raloim de verdade!”

Os passarinhos levantaram voo e deixaram o Raloim, o cabeça de abóbora, em paz.

Hoje, quando o Raloim vai visitar o país dele, conta um monte de histórias de Saci para os amigos, jura que eu existo de verdade e diz que eu sou o melhor amigo que ele tem. No fundo, no fundo, eu sempre achei que o cabeça de abóbora era um cara gente fina.

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Uma resposta para O Cabeça de Abóbora

  1. Teresa Cristina do nascimento Bendini disse:

    Adorei…saci não tem perna mas tem cabeça.

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