O Velho Graça

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Dênis de Moraes (Editora Boitempo – biografia – 359 págs.)

Sinopse: O livro conta a trajetória de Graciliano Ramos, desde seu nascimento em Alagoas, 1892, até sua morte no Rio de Janeiro em 1953. Destaque para a passagem pela política como prefeito de Palmeira dos Índios, a prisão depois da intentona comunista de 1935, a militância no PCB, a conturbada vida familiar e sobretudo, a prestigiosa carreira literária.

Comentários: Se não estivesse morto, Graciliano Ramos seria um ótimo candidato para as próximas eleições.  Como prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas, em 1928, Graciliano determinou que os animais encontrados nas ruas fossem recolhidos e seus proprietários multados. Sebastião Ramos, seu pai, não acatou a ordem, foi multado e ficou magoado com o filho. “Prefeito não tem pai”, disse Graciliano a Sebastião, “eu posso pagar sua multa, mas vou apreender seus animais toda vez que o senhor deixá-los na rua.”

Nem Machado, nem Guimarães Rosa, nem Clarice. Junto com Milton Hatoum,  Graciliano Ramos é meu autor brasileiro favorito. E entre seus livros, o incensado “Vidas Secas” não é meu predileto, mas “São Bernardo”. Agora, depois de conhecer detalhadamente a biografia de Graciliano, minha admiração só fez aumentar, ao saber, por exemplo, que pressionado pelo PCB, partido pelo qual militava, para que sua obra fosse mais engajada, Graciliano optou por deixar a literatura acima da ideologia e preservou sua independência intelectual até o fim.

“O Velho Graça” é leitura  necessária. Para quem gosta de literatura,  para que se conheça um escritor genial, seus processos criativos e o compromisso do autor com a palavra escrita. Aos historiadores: “As memórias de Graciliano ajudaram muito os historiadores, impedindo que o Estado Novo fosse interpretado erroneamente, já que as pessoas tendem a ver apenas o segundo Vargas, na década de 50. Também impediram que muitos ficassem endossando a repressão política da época.” E ao brasileiro em geral, nesses tempos áridos de individualismo rascante e crise de valores, para que se conheça um indivíduo de caráter.

E conforme trecho da biografia (abaixo) perceberemos que o mercado editorial brasileiro para livros de ficção na era do ebook, das mega livrarias e da invasão do capital de grandes grupos editoriais internacionais; não mudou muito: Mestre Graça morreu pobre, como pobres são a maioria dos escritores brasileiros. Havia a exceção de Amado, Lins do Rego e Veríssimo (o pai); como hoje há a de meia dúzia de autores. Havia tiragens médias de 2 mil exemplares, tiragens atuais de muitos escritores-revelação da cena literária. Um mercado editorial centralizado nas capitais do sudeste e do sul, como hoje. E a trajetória de Graciliano que é descrita como uma “carreira literária que era uma miragem”, como a de quase todos nós, escritores, ou antes, pretensos escritores brasileiros.

Trecho: “Graciliano Ramos morreu pobre. Afora os direitos autorais de seus livros, deixou vinte dias do vencimento do mês de março de 1953, do cargo de inspetor de ensino. Segundo Ricardo, o pai, apesar de ter dois empregos, ganhava menos do que os três filhos moços que trabalhavam (…) A carreira literária era uma miragem. As tiragens médias eram de 2 mil exemplares. O mercado editorial cingia-se a capitais do Sudeste e do Sul e restrito às elites intelectuais. Contava-se nos dedos os escritores bem-sucedidos, como Jorge Amado, José Lins do Rego e Erico Veríssimo (…) seus livros tiveram, até sua morte, modesta ressonância de vendas (…) em vida, ele não viu seus livros nas listas dos mais vendidos. “Meu público é insignificante, e não julgo que haja probabilidade de aumentar.” resignava-se. Mas, se lhe acusavam de ser um escritor difícil, resmungava: “Analfabetos!” Em fins de 1953, José Olympio publicou “Memórias do Cárcere” em quatro volumes (…) o livro provocou impacto com suas revelações, inclusive no Palácio do Catete (…) Pela primeira vez, Gracliano estourou em vendas – 10 mil exemplares esgotados em 45 dias. Unanimidade de crítica. Para Lúcia Miguel Pereira, “Memórias do Cárcere” comparava-se ao clássico Recordações da casa dos mortos de Dostoiévski.”

Por: Alexandre Gennari

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