Uma crônica de Mário Prata

Literatura – A Arte da Crônica – Crônicas Comentadas

Um remedinho para o Turco
Mário Prata 

Na quinta-feira da semana passada o Fernando Morais me presenteou (1) com a novíssima edição da sua Ilha. Escreveu há 25 anos, andou por lá de novo no ano passado e fez um prefácio a esta trigésima edição, que é quase um novo livro. A Ilha não é Florianópolis. É Cuba. Pois bem. Na mesma noite li, numa enfiada só, as últimas e conscientes considerações do Fernando, no livro agora ilustrado por sensíveis ilustrações da Ritinha, filha dele, que já foi até assistente do Sebastião Salgado e eu vi nascer. Não o Tião, mas a Rita Morais (2).

Mas chega de rasgação (3) e vamos ao que interessa. Fernando, no livro, me informa que há muitos anos o Fidel Castro – ou melhor, a medicina de Cuba, a pedido do Comandante – já havia fabricado o seu Viagra caribenho. E, parece, muito mais eficaz. Diz o autor: “Os prodígios da biotecnologia cubana tinhamem Fidel Castro seu maior propagandista. Todo ilustre visitante do sexo masculino que o visitasse recebia de presente uma caixa de pílulas PPG5.

Fabricado à base de um álcool de alto peso molecular, extraído da cana-de-açúcar, o remédio teria a propriedade de aumentar o calibre das artérias e atacar as frações de gordura existentes no sangue. Durante as pesquisas descobriu-se que, além de reduzir sensivelmente as taxas de colesterol, o efeito vasodilatador da pílula também atuava sobre o pênis, estimulando a ereção.” Ponto. Fechei o livro, mas fiquei com o PPG5 na cabeça.

No dia seguinte acordo e vejo na primeira página dos jornais (4) o Menem sendo preso. Se é que aquilo lá é uma prisão. Ficar proibido de sair do lado de uma ex-Miss Universo (5), 36 anos mais nova do que ele, eu também queria. A manchete do Estadão era Pizza com Champanhe. E com mais coisa.

E o que é que tem a ver a prisão do Menem (com 71 anos) com o Fidel Castro (75 anos)? (6) Tem que, nos jornais do dia, havia uma informação muito importante: há mais de dez anos, Fidel presenteia Menem com as tais caixinhas. PPG5 para ereção. Fico até imaginando a ex-mulher dele, a Zulema (vê se isso é nome de primeira-dama…) escondendo a caixa quando brigava com ele. No lo se, no lo se…

Menem está preso e deve ter levado sua caixinha, é claro. Está preso por quê? Porque enviava armas para o Equador e para a Croácia. Os jornais não informam para que facções políticas nos dois países. Principalmente lá na Europa onde havia muitas posições ideológicas e religiosas em jogo.

Mas como soube do PPG5 de noite e li que o Menem recebia o danadinho havia mais de dez anos na manhã seguinte, só posso concluir que ele andou trocando armas com o Fidel. Mandava bazucas para grupos de esquerda e recebia o remedinho para a própria bazuca (7). Uma simples e singela troca de armas. Os cubanos não diziam que “hay de endurecer siempre, pero sin perder la ternura”? (8) Se não estou enganado, a frase é de um argentino, o Ernesto Che Guevara. Entonces…

Isso tudo vem bater com uma velha teoria minha de que os homens só brigam por causa de mulher. Os croatas lá levando tiro de uma metralhadora que vinha da Argentina, e a Miss Universo pegando em vasos dilatados por Cuba.

E assim caminha a humanidade (9), como diria James Dean.

Em 1992, quando a guerra civil terminou na Croácia, já matara 6 mil pessoas, além de deixar 23 mil feridos e 400 mil desabrigados. E continuou morrendo gente até 95. Enquanto isso, na Casa Rosada, Menem fazia plástica no rosto. Sim, porque o resto estava em cima.

texto extraído do jornal O Estado de São Paulo – Jun/2001 – A reprodução deste texto tem fins exclusivamente didáticos.

Notas: (1)  Experiência pessoal. Primeira pessoa – (2)  Humor – (3)  Gíria – Linguagem coloquial e cotidiana – (4)  Fato – (5)  Estilo malandro – (6)  Costura a crônica – (7)  Trocadilhos. Metáforas com humor – (8)  Lugar-comum como metáfora – Humor – (9)  Idem

Comentários:Mário Prata, jornalista por formação, costuma partir de um fato do noticiário para elaborar suas crônicas. Comenta o fato e brinca com ele. Escreve na primeira pessoa valendo-se de experiências pessoais. Comumente é o personagem de suas histórias. Usa linguagem leve e coloquial, e gírias num estilo jovem e dinâmico que dá fôlego a seus textos. Aborda com freqüência temas como Internet, maconha e outros que o aproximam do público jovem. O humor dá o tom de suas crônicas, num estilo meio malandro, mulherengo e cafajeste. É extremamente criativo, inventa metáforas cômicas e inusitadas, situações non-sense, e brinca com ditados populares e lugares-comuns invertendo seu sentido em favor do humor e de uma maior aproximação com o leitor. (Por Alexandre F. Gennari)

Este texto foi elaborado à partir de estudos sobre uma seleção de crônicas publicas pelo autor no jornal O Estado de São Paulo no ano 2000

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2 respostas para Uma crônica de Mário Prata

  1. Pingback: Uma crônica de Mário Prata | Webwritersbrasil's Blog

  2. ana disse:

    gostei enteressante ….

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