Nessa Terra de Gigantes

Alex Gennari – Contos Infantis

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Eu não sei que tamanho uma pessoa precisa ter pra ser chamada de gigante. Mas pra mim aquele cara era um gigante. Claro! Pra olhar pro rosto dele eu precisava inclinar o pescoço pra cima até doer. Quando ele passava pela porta de casa, eu ficava com medo que ele fosse ralar o cocuruto no batente. Ai, ai, ai, vai bater, eu pensava, e encolhia bem o pescoço, como se tivesse levado uma martelada no alto na cabeça e meu pescoço tivesse afundado. Os passos dele (com aquelas botas número 44) soavam como um bumbo quando caminhava pela casa. Mesmo assim minha mãe insistia em dizer que não: “Ele não é um gigante, filho. É só um homem alto.” “Mas um homem alto não é um gigante, mãe?” “Não. Um gigante é um gigante e um homem alto é um homem alto.” Adulto tem cada uma, eu pensava. Não dá na mesma?

Mas tive certeza que o cara era mesmo um gigante no dia que acordei e havia um pé de feijão enorme no quintal da minha casa. Era tão grande que não dava pra ver o fim. Ia até o céu. Saltei da cama, corri pro quintal e comecei a subir pelo pé de feijão. Subi, subi, subi, até que dei uma olhada pra baixo e vi minha casa pequenina láááááá embaixo. Senti frio na barriga de tanto medo. Mas a curiosidade era maior. E continuei subindo, subindo, subindo, até chegar em uma nuvem. Toquei nela e percebi que era macia como algodão. Um monte de passarinhos voavam por ali, cantavam, alegres, coloridos. Deitei sobre a nuvem e fiquei lá, flutuando, olhando o céu azul, os pássaros e outras nuvens que passavam bem devagar. Peguei no sono e quando acordei já estava escurecendo. O friozinho na barriga que eu tinha sentido antes virou um baita medão. Mamãe devia estar preocupada. E brava! Comecei a voltar, mas o escuro da noite que vinha chegando dificultava a descida. E o medo quase me paralisava. Os passarinhos tinham sumido, só os morcegos voavam à minha volta. Tentei ser corajoso como meu pai, mas não deu. Abri o berreiro. Foi quando o pé de feijão começou a balançar. Ai, ai, ai, pensei, será que esse negócio vai cair. Só me faltava essa… Mas não. Era o gigante que subia vigorosamente. E rapidamente me alcançou, me enlaçou com seu braço forte, enorme, enxugou minhas lágrimas e me levou de volta lá pra baixo. Como se descer por um pé de feijão que vai da terra até o céu, em plena escuridão da noite, fosse a coisa mais fácil do mundo. Pra ele era.

Esse gigante era meu pai. Naquele tempo ele era um gigante. Me lembro que olhava pra ele e ficava abismado com aquelas mãos peludas de gigante do bem que me ajudavam nas minhas brincadeiras e às vezes me advertiam sobre algum perigo dizendo não com o dedo indicador. Coisas assim. Mas agora meu pai não é mais gigante. É uma pessoa bem grande, mas normal. Minha mãe diz que ele nunca foi um gigante. Rárárá! Mas ela não me engana, eu me lembro direitinho de quando ele era gigante! “Você é que era pequenininho, filho, e agora você cresceu um pouco”, ela diz, “e vai continuar crescendo, até ficar do tamanho do seu pai.” Isso quer dizer que um dia eu também vou ser um gigante.

“Não filho, você vai ser um adulto. Se quiser ser como um gigante você vai ter que ser um homem de bem. Como seu pai.

Viram só! Não disse que meu pai era um gigante!

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