Samir Yazbek

Roteiros – Entrevistas – Teatro

Samir Yazbek é dramaturgo e diretor teatral. Formou-se em cinema, mas o teatro sempre foi sua grande paixão. É autor de peças como “A Entrevista”, “O Invisível”, “O Fingidor” e “A Noite do Barqueiro”, entre outras.  

Realização e edição: Alexandre Gennari – Revisão e diagramação: Akemi Sakurai e Murilo Dias César Caricatura: X-Kid

Destaques:

“Algumas pessoas me ajudaram muito, entre elas o Antunes Filho, grande diretor de teatro, com quem aprendi quase tudo sobre dramaturgia, principalmente aquilo que eu não sabia que não sabia”.

“Tenho uma vantagem da qual me orgulho: Eu me dedico exclusivamente ao teatro. Toda a minha energia é canalizada para ele. Adoro teatro!”

“Há aquela frase famosa que diz: ‘Autor bom é autor morto’. Mas, no meu caso, o bom de estar vivo [risos] é fazer o texto enquanto ele está acontecendo. Vou aos ensaios, às apresentações, e refaço, corrijo e reescrevo sempre que possível (…) Embora as peças que escrevo sempre partam de uma idéia minha, da minha iniciativa como autor, o contato com a equipe sempre modifica e enriquece o texto.”

“O texto teatral tem a ambição de organizar certas questões, dúvidas e perplexidades, definir um ponto de partida e de chegada para um caminho que leve o espectador à reflexão, que cause nele algum efeito. A arte da escrita dramatúrgica ambiciona estabelecer alguma ordem num mundo aparentemente caótico. É a arte de criar ordens arbitrárias, ficcionais, que proporcionem a ilusão de que estamos entendendo algo em meio a este caos”.

“Para escrevermos, precisamos criar novas referências e, a partir delas, contarmos nossa história. Isso só é possível quando temos um ponto de vista sobre a realidade. E cada autor vê a realidade de um prisma diferente. Mas, independentemente da ótica de cada autor, é hora de descobrirmos novas fórmulas para não repetirmos as velhas e para estabelecermos quais são os conteúdos que nos interessam nos dias de hoje”.

“Estamos falando de uma área que desperta muitos apetites, muita gente é atraída pela possibilidade de dinheiro, fama, rede Globo… É o culto à celebridade! Muita gente, que não tem talento, vira ator ou dramaturgo… Fazem cursos profissionalizantes, mas não têm dúvida na hora de escolher entre uma balada e uma peça de teatro. Eu não consigo conceber alguém que quer trabalhar com teatro e não vai a teatro”.

“A capacidade de síntese é uma das primeiras lições de dramaturgia (…) Não sei se a questão do tempo é uma regra absoluta. Mas a questão da síntese, sim! Uma peça de quatro horas e outra de meia hora podem ser a síntese perfeita de uma história”.

“Tenho encontrado um espaço muito grande na mídia para falar de arte e isso é uma coisa rara. Há pessoas que dizem que está tudo perdido, mas na minha carreira, mesmo com um trabalho sem concessões, coisas boas estão acontecendo. Conseguir atingir as pessoas, ganhar espaço na mídia e o reconhecimento da crítica sem fazer concessões, é um verdadeiro milagre!”

“Estou escrevendo uma peça, não no papel, mas na minha cabeça. Em ‘A Entrevista’, a personagem da Lygia diz: ‘Eu sinto que o meu melhor ainda está por vir’. Eu me sinto um pouco assim. Tenho o projeto de três espetáculos que podem se tornar em um marco na minha trajetória”. 

Entrevista:

WWB: Como você vê essa coisa de fazer teatro autoral e discutir temas profundos, ao contrário do que se está fazendo por aí, principalmente a dramaturgia que vende no país?

Samir Yazbek: Tenho uma vantagem da qual me orgulho: Eu me dedico exclusivamente ao teatro. Toda a minha energia é canalizada para ele. Adoro teatro! E isso suplanta qualquer interesse por outras mídias. Não procuro o cinema ou a TV. Não por orgulho, mas apesar de todas as dificuldades de produção e patrocínio, consigo, com uma certa regularidade, colocar minhas peças em cartaz e desenvolver um trabalho que começa a encontrar seu público.

 WWB: Que é o mais complicado…

 Samir Yazbek: Mais complicado e mais demorado. Requer persistência. O teatro que faço precisa de uma dedicação especial, porque gosto muito do contato ao vivo, da interação com o público, do trabalho do ator… Mas não considero minha dramaturgia autoral, no sentido personalista, porque me beneficio muito do trabalho dos atores e da direção…

Há aquela frase famosa que diz: “Autor bom é autor morto”. Mas, no meu caso, o bom de estar vivo [risos] é fazer o texto enquanto ele está acontecendo. Vou aos ensaios, às apresentações, e refaço, corrijo e reescrevo sempre que possível.

WWB: Uma dinâmica bastante atual, o autor ir para o palco, o roteirista ir para o set…

Samir Yazbek: Isso é necessário. Embora as peças que escrevo sempre partam de uma idéia minha, da minha iniciativa como autor, o contato com a equipe sempre modifica e enriquece o texto.

WWB: Você escreve ou já escreveu para outras mídias além do teatro?

Samir Yazbek: Meu trabalho é absolutamente focado em teatro. Minha experiência com cinema é exclusivamente acadêmica. O cinema tem a questão da imagem. Eu sou uma pessoa da palavra, do verbo, da escuta… Do diálogo! Não que o cinema não tenha diálogo, mas o preponderante é a imagem. Não me seduz a idéia de contar algo por meio de imagens e sim por meio de palavras e silêncios. A relação ao vivo me seduz, a presença, a instabilidade que o teatro causa no público. Isso só há nas artes cênicas, só no teatro e na dança. Não passa pela tela.

WWB: Como você define roteiro?

Samir Yazbek: O termo roteiro está mais ligado ao cinema. Mas o texto teatral tem a ambição de organizar certas questões, dúvidas e perplexidades, definir um roteiro, como o próprio nome diz, um ponto de partida e de chegada para um caminho que leve o espectador à reflexão, à sensação e à emoção, que cause nele algum efeito. A arte da escrita dramatúrgica ambiciona estabelecer alguma ordem num mundo aparentemente caótico. É a arte de criar ordens arbitrárias, ficcionais, que proporcionem a ilusão de que estamos entendendo algo em meio a este caos. Hoje em dia, realizar isso se tornou ainda mais difícil. Vivemos um momento em que a imaginação criadora foi sufocada.

WWB: Em entrevista ao WebWritersBrasil, o roteirista Doc Comparato afirma que: “O mundo está mudando de velocidade. A sua vida e o seu tempo estão mais rápidos. Talvez esse mecanismo de velocidade dramática gere produtos sem forma e sem conteúdo”. Essa equação vale para o teatro também?

Samir Yazbek: É um desafio. Nós perdemos muitas referências antigas e com isso ganhamos uma série de indefinições sobre o que está acontecendo e sobre o que vai acontecer. Para escrevermos, precisamos criar novas referências e, a partir delas, contarmos nossa história. Isso só é possível quando temos um ponto de vista sobre a realidade. E cada autor vê a realidade de um prisma diferente. Mas, independentemente da ótica de cada autor, é hora de descobrirmos novas fórmulas para não repetirmos as velhas e para estabelecermos quais são os conteúdos que nos interessam nos dias de hoje. Para cada tema, haverá uma forma ideal de narrar por meio do roteiro ou do texto teatral.

Por outro lado, as grandes questões e as grandes discussões não mudam muito, nós continuamos lidando com os temas que os gregos lidavam. Quanto mais profundamente abordarmos esses assuntos, mais profundamente seremos capazes de tocar as pessoas.

São desafios complexos, mas eu prefiro falar deles do que pensar em fórmulas para escrever ou dizer que a melhor fórmula é a minha.

WWB: Gostaríamos que você comentasse um trecho do seu artigo “Iniciativas reavivam interesse dos autores”, publicado no Estado de São Paulo: “… muito se fala da ausência de bons autores na produção multimídia brasileira. De um lado, estão aqueles que garantem que a origem de uma suposta ‘crise da dramaturgia’ está na falta de novos autores. De outro, aqueles que acreditam que há novos talentos, mas faltam oportunidades para que eles se projetem e aperfeiçoem sua técnica”.

Samir Yazbek: Estamos falando de uma área que desperta muitos apetites, muita gente é atraída pela possibilidade de dinheiro, fama, rede Globo. É o culto à celebridade! Muita gente, que não tem talento, vira ator ou dramaturgo. Fazem cursos profissionalizantes, mas não têm dúvida na hora de escolher entre uma balada e uma peça de teatro. Eu não consigo conceber alguém que quer trabalhar com teatro e não vai a teatro.

Por outro lado, há muita gente que tem talento, mas um talento desencontrado. Escrever requer desenvolvimento pessoal e maturidade. Se você não tem nada a dizer, a discussão em torno de técnicas se torna infrutífera. Assim, há o talento com um certo jeito para a coisa, e há a vivência, a experiência. Só aí entra a questão da técnica, da teoria.

O autor só abre seu caminho com trabalho. Eu cheguei a um ponto muito legal, no qual tenho conseguido sensibilizar proprietários de teatros, instituições, patrocinadores, órgão governamentais. É pouco perto do que precisamos, mas é um grande avanço se pensarmos que isso acontece em um tempo no qual a convicção autoral foi solapada. Não é todo dia que nasce um grande autor. Sinto que meu trabalho precisa de continuidade. 

Então essa coisa de teatro autoral, que em princípio pode parecer algo individualista, pode ter um sentido benéfico a partir do momento em que começa a contaminar as pessoas em volta. Nossa conversa aqui tem a ver com isso. Os autores precisam fincar os pés, bater à porta.

Isso deve ser levado em consideração em um momento no qual falar em texto teatral autoral virou um sacrilégio, com o advento dos grupos e da dramaturgia nascendo a partir das cenas. Mas mesmo com essa dinâmica, ela precisa de uma identidade e quem faz isso é o autor.

 WWB: Você não acha que o cinema brasileiro já entendeu isso e o teatro não?

Samir Yazbek: O teatro ainda tem muito a aprender e crescer. Mas está surgindo uma nova geração de bons autores, produzindo bons textos: Luiz Alberto de Abreu, Alcides Nogueira, Bosco Brasil, Mário Bortollotto, Mário Vianna…

WWB: Em 2002, o Renato Borghi organizou a “Mostra Contemporânea de Dramaturgia” em São Paulo. A proposta era a criação de textos de curta duração, entre 30 e 40 minutos. Você participou do evento com a peça “O Regulamento”. Como você vê essa proposta? Isso não seria uma adaptação do teatro aos novos tempos e às novas linguagens, como da internet, onde tudo é mais rápido, objetivo e impactante?

Samir Yazbek: A capacidade de síntese é uma das primeiras lições de dramaturgia. Se você vai contar uma história, seja de uma vida ou de uma mudança, seja em duas horas ou em meia hora, há sempre pouco tempo para contar. Então a questão é: como sintetizar os acontecimentos, as ações?

Não sei se a questão do tempo é uma regra absoluta. Mas a questão da síntese, sim! Uma peça de quatro horas e outra de meia hora podem ser a síntese perfeita de uma história.

Quando há uma série de novas tecnologias, podemos nos beneficiar da idéia que as sustenta, mas não a ponto de querer fazer com que o teatro fique parecido com o cinema, com a internet ou com a televisão. O teatro é o teatro e tem uma série de características e peculiaridades. Eu vejo a convergência, mas vejo também a identidade.

WWB: Qual é a sua experiência com internet?

Samir Yazbek: Apenas como usuário. Se eu resolvesse criar algo para a internet, não sei o que sairia. Por causa dessa minha fissura pelo teatro, talvez eu resista um pouco a entrar na rede. Se fosse ligado ao cinema ou à televisão, o caminho seria mais curto.

Mas a net, como divulgadora de idéias e fórum de discussão, é a melhor invenção que já surgiu.

WWB: E como você vê a questão financeira, dá pra viver de teatro no Brasil? Como você avalia esse mercado?

Samir Yazbek: Eu vivo de teatro, mas de uma forma instável e perigosa [risos]. Eu deixei diversos empregos muito bons na área de educação para me dedicar ao teatro.

WWB: Sua carreira fora do teatro esteve ligada à pedagogia. É outro talento seu?

Samir Yazbek: Sim, por isso eu gosto muito de ensinar dramaturgia, é uma possibilidade de reciclar as próprias idéias.

Tenho encontrado um espaço muito grande na mídia para falar de arte e isso é uma coisa rara. É quase um milagre [risos]. Há pessoas que dizem que está tudo perdido, mas na minha carreira, mesmo com um trabalho sem concessões, coisas boas estão acontecendo. Mas além do reconhecimento da crítica e do público mais embasado, eu tenho a pretensão de falar a mais gente, de ampliar o alcance do meu teatro, de tocar pontos comuns a públicos distintos. Isso tem a ver com uma característica marcante no meu trabalho que é falar a uma parte meio adormecida de pessoas muito diferentes. Conseguir atingir as pessoas, ganhar espaço na mídia e o reconhecimento da crítica sem fazer concessões, é um verdadeiro milagre!

WWB: Quem são os seus autores preferidos?

Samir Yazbek: Ibsen, Tcheckov, Shakespeare, Becket, Nelson Rodrigues, Jorge Andrade…

WebWritersBrasil: Fale-nos um pouco sobre sua formação profissional.

Samir Yazbek: Estudei Física e larguei; estudei Filosofia e larguei. Completei o curso de cinema, mas o teatro sempre foi minha grande paixão.

WWB: Fale-nos um pouco sobre seu trabalho como dramaturgo. Como você começou?

Samir Yazbek: Algumas pessoas me ajudaram muito, entre elas o Edson Santana, que foi diretor do teatro Arena e me iniciou no teatro profissional; o Antônio Januzelli, professor da ECA-USP; o Antunes Filho, grande diretor de teatro, com quem aprendi quase tudo sobre dramaturgia, principalmente aquilo que eu não sabia que não sabia. A primeira peça que escrevi foi “Uma Família à Procura de um Ator”, em 1989. Eu era autor e ator, e o Edson [Santana], o diretor. 

WWB: Quais são seus principais trabalhos?

Samir Yazbek: Cada trabalho tem uma característica própria e vem nos ensinar algo sobre um determinado contexto. Por isso é muito difícil dar conta de tudo que cada um deles abarca e tentar explicá-los.

 

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