Escrevendo Crônicas

1. Temas: O cronista é aquele que capta breves momentos que compõem a condição humana, fatos irrisórios ou imagens pitorescas. Ele ouve conversas, recolhe frases, observa pessoas e registra situações, flagrantes de esquina e do cotidiano; as palavras de uma criança, incidentes domésticos e coisas que acontecem nas ruas. Lida com acontecimentos corriqueiros ou inusitados e com fatos do noticiário. Cabe ao cronista mostrar ao leitor aquilo que só ele vê nas entrelinhas do fato. Normalmente, parte de situações particulares que funcionam como metáforas de situações universais. A experiência pessoal é o ponto de partida para acessar verdades maiores. Em alguns casos pode abordar diversos assuntos numa mesma crônica, desde que haja uma linha central de raciocínio, que permita ao escritor, no final, amarrar as matérias que escolheu. O cronista pode falar sobre atualidades em geral ou eleger focos determinados. A crônica é democrática quanto aos temas que acolhe, mas há matérias que não cabem neste gênero.

2. Localização: Uma matéria característica da crônica é a vida nas grandes cidades, suas peculiaridades e contradições; normalmente como um contraponto à vida mais tranqüila e natural do interior. O cronista desenha um painel da vida urbana e a relação do morador com sua cidade. Retrata o modo de vida do espaço em que vive como testemunha de seu tempo. Embora tenha como ponto de partida o regionalismo, a crônica não é um gênero exclusivamente regional. O regionalismo funciona apenas como meio de acesso à universalidade.

3. Gênero: Contos, novelas e romances, são conhecidos como os gêneros nobres da literatura. A crônica é um sincretismo de gêneros que também exige um escritor de talento. A única diferença é que há autores que se dedicam exclusivamente a um só gênero e outros transitam por todos eles porque têm essa característica. A crônica é ambígua por natureza, começa no jornalismo, nas colunas e artigos opinativos, como um gênero não-ficcional. Torna-se literatura à medida que supera seus limites e alcança a ficção. Para isso o cronista acrescenta emoção, poesia e uma preocupação estética diferente da reportagem, ao fato que virou (ou não) notícia, tornando-a não-perecível, ao contrário da matéria informativa. Com a narrativa poética cria climas envolventes para falar desses fatos corriqueiros do dia-a-dia ou dos assuntos do noticiário.

4. Duração: A matéria jornalística é perecível pois está ligada ao fato e à periodicidade do jornal diário. Quando a crônica transcende o fato em si aproximando-se da ficção, da literatura, torna-se matéria não-perecível. Alguns recursos usados pelo cronista para esse fim são: A construção de diálogos, a criação de personagens à partir de uma matriz real, uma linguagem mais poética, uma construção estética bem elaborada, etc. Com esses elementos o autor cria um texto que fica entre a crônica e o conto que poderá atingir uma outra esfera ao integrar uma coletânea publicada em livro, superando a transitoriedade e tornando-se mais duradoura. Normalmente, os textos que envelhecem mais rapidamente devido à sua circunstancialidade não entram nas seleções.

5. Construção: A preocupação estética leva o cronista a uma construção muito bem cuidada, que se aproxima mais da literatura. As entrelinhas, a poética, o poema em prosa e o ritmo da narrativa, tornam-se fundamentais. O cronista constrói frases de forma artesanal, escolhendo com cuidado as palavras e seus significados, criando frases de efeito, valendo-se de metáforas inteligentes e figuras de linguagem.

6. Linguagem: A linguagem predominante na crônica é coloquial. O cronista do cotidiano privilegia o despojamento verbal. Muitas vezes rompe com os padrões lingüísticos, desrespeita a norma culta e usa gírias, imprimindo um ritmo de bate-papo, de “conversa-fiada” à narrativa.

7. Objetivo: A crônica tem a função de divertir o leitor, mas também de aprofundar a notícia e mostrar a relação entre os fatos e as pessoas, provocando catarses, superando a realidade limitativa e sufocante. Para isso o cronista instiga o leitor à reflexão e o ensina a ver mais longe, além dos fatos. Cabe ao cronista, assumir a indignação do leitor e, muitas vezes, falar por ele.

8. Narrador: Normalmente, o cronista narra algo na primeira pessoa. A crônica, em alguns casos, tem um caráter confessional, autobiográfico. O cronista parte de experiências próprias, fatos que testemunhou ou dos quais participou, sempre com um certo envolvimento. Isso o conduz à flash backs relacionando fatos atuais com o passado e sua infância. Essa nostalgia favorece a poesia, gera textos emocionais e sensíveis que criam identidade com o leitor. Quem fala na crônica é sempre o cronista, ainda que através de terceiros.

9. Opinião: No texto informativo, o jornalista limita-se a narrar os fatos com imparcialidade. Na literatura, o escritor manifesta sua opinião através de seus personagens. Mas na crônica, o autor pode expressar sua opinião, ainda que nas entrelinhas. O cronista é aquele que, de uma posição privilegiada, a tudo observa e sabe. Envolve-se com os problemas que aborda mas não se mistura à vulgaridade da sociedade. Coloca-se à parte e convida o leitor a refletir sobre isso também. No entanto, é importante que a intenção do cronista não seja explicita para não tornar-se panfletária, por isso é fundamental, como em qualquer peça literária, o bom uso das entrelinhas.

10. Personagens: Em alguns casos a narrativa é feita na terceira pessoa, ou através de pessoas reais que se tornam personagens. Quando inventa uma personagem o cronista agrega ficção a fatos e pessoas reais, semelhantes a tantas outras que conhecemos. O cronista é responsável pela composição ou reprodução de interessantes tipos humanos. Muitas vezes, o narrador torna-se personagem de si mesmo.

11. Dialogismo: O cronista dialoga com o leitor, consigo mesmo ou com personagens imaginários, através de perguntas lançadas ao ar. Essa forma de interatividade cria uma importante cumplicidade com o leitor. Em alguns casos há diálogos com a ausência do narrador, o que faz com que a crônica aproxime-se bastante do formato do conto. Na crônica, a idéia de diálogo deve permanecer sempre, em qualquer circunstância, como forma de interação com o leitor e para manter um formato que se aproxime do bate-papo, uma característica marcante do gênero.

12. Cumplicidade: O cronista utiliza diversos recursos para criar cumplicidade com o leitor, puxando-o para o seu lado: O dialogismo, assumir a indignação do leitor, lembranças de fatos comuns à muitas pessoas e temas universais mesmo que contidos em realidades particulares.

13. Humor: O riso é um jeito ameno de denunciar os absurdos que vivenciamos no dia-a-dia. Por intermédio de sua arte, o cronista mostra o ridículo da condição humana, da realidade urbana e do cotidiano do brasileiro. Situações cômicas se não fossem trágicas. Através do humor, expressa sua indignação, com ironia, cinismo e até sarcasmo. O humor deve ser refinado e a ironia inteligente para que o texto não se torne vulgar. A crônica é um gênero predominantemente leve, por isso o autor brinca com os fatos que elege como tema e brinca consigo mesmo, ironiza-se como personagem. Outros recursos são o exagero e o non-sense.

14. Crítica: Através do humor o cronista pretende recuperar a capacidade crítica de seu leitor enquanto o diverte, sem perder o caráter de leveza próprio da crônica. São matérias predominantes na crônica a crítica de costumes, a crítica política e social, onde o cronista, em algumas ocasiões, assume o lado das classes menos favorecidas.

15. Lugar Comum: Os ditos populares e consequentemente os lugares-comuns podem ser usados pelo cronista de modo criativo, parodiando o próprio dito ou aplicando-o de forma inversa a seu significado e fora do contexto adequado. Isso cria passagens cômicas e aproxima o leitor comum que normalmente conhece e identifica-se com a frase usada pelo autor.

16. Citações: O cronista pode recorrer a citações de personalidades, personagens e fatos históricos, etc; conferindo peso informativo e cultural à crônica. Mas com muito cuidado para não cair no didatismo ou numa linguagem excessivamente acadêmica e rebuscada que não cabe de nenhuma forma à crônica.

17. Tempos Modernos: Atualmente, a comunicação tem características comuns, independentemente do veículo e do gênero escolhidos. A crônica de hoje deve ser ágil, dinâmica e objetiva, de preferência construída com frases curtas e diretas e sem adjetivações. É importante que o leitor identifique claramente o assunto da crônica e a posição do cronista em relação à questão. A concisão é uma grande qualidade no cronista e no escritor de hoje. A crônica é a síntese de um fato, de um pensamento. Não cabe ao cronista informar o acontecimento novo e investigar detalhes, mas repensar o fato. Mas concisão não é sinônimo de pobreza, um texto conciso não é necessariamente um texto curto, mas sim, objetivo.

18. Criatividade: Como em qualquer tipo de produção criativa, o cronista precisa ter imaginação, criatividade, procurar soluções criativas. Inovar! É impossível delimitar a crônica em definições pois suas possibilidades são infinitas, não há um padrão único, mas escritores diversos compondo sua própria poética, buscando novos horizontes.

19. Finalmente: Esqueça tudo que você leu até agora e aprenda a pensar… pensar… pensar… Escrever crônicas é um exercício constante de refletir sobre a realidade que nos cerca. É estar antenado o tempo todo a tudo que está acontecendo à nossa volta. Em literatura, como na vida, nada é definitivo!

Alexandre Gennari
Editor de Conteúdo

Fontes:
– Sá, Jorge de. A Crônica – Editora Ática – 94 págs – 1997
– Pesquisa elaborada à partir de estudos sobre uma seleção de crônicas publicas por diversos autores no jornal O Estado de São Paulo no ano 2000.

4 respostas para Escrevendo Crônicas

  1. Rosimar Leal disse:

    Adorei as dicas. Eu gosto de escrever e tenho procurado me aperfeiçoar. Depois das dicas irei revisar um texto que escrevi. Acho que é uma crônica: retrata uma questão especifica do cotidiano. Mãos à obra!

  2. Jefferson Veronezi disse:

    Muito Bom!!! Sou professor universitario e tenho relatado fatos do cotidiano no facebook, muitos deles ocorrido nos corredores do hospital. Algumas pessoas tem sugerido que eu escreva um livro, o que tem me feito refletir sobre isso. Muito Obrigado!!!

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