O grande cerimonial

Alexandre Gennari – Crônica – Teatro

     

Vamos fazer de conta que o espetáculo “O Grande Cerimonial” – assinado pelo dramaturgo espanhol Fernando Arrabal – é um medicamento e não uma peça teatral (uma espécie de remédio anti-monotonia), e como todo medicamento, tem uma bula. E que essa bula é entregue ao público na bilheteria, junto com o ingresso (à guisa de programa). A principal recomendação: Deixe seu racional aqui, no saguão, do lado de fora da sala, e viaje a viagem de Arrabal e seu teatro, absurdo, por excelência e por definição.

A tarefa não seria fácil. Na viagem de Arrabal, tudo pode ser verdade, mas toda a ação pode acontecer apenas na cabeça no protagonista, uma espécie de Quasímodo que, ao contrário da personagem corcunda, não tem a mínima vocação para pendores de bondade ou heroísmo. Acredita que não passa de um ser abjeto e monstruoso. E ponto final. Mesmo quando surgem indícios de que poderia ser apreciado da maneira como é. Assume sua inadequação à sociedade que o cerca e faz disso um tipo de trunfo. Ri dela, cospe nela (pelo menos da boca pra fora). Mas será que esse sujeito pervertido, mata de fato mulheres ou apenas tortura bonecas doentiamente acreditando estar matando mulheres?

E a moça com quem flerta é uma mulher de osso, carne, que tem uma vagina de verdade (com seus sumos e odores), ou apenas uma boneca de pano, plástico e imaginação?

E a mãe de Quasímodo, é um fantasma que o assombra vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, ou apenas uma mãe, humana, demasiado humana, dominadora, devoradora, despejando suas frustrações de mãe sobre o filho deformado? Talvez seja Jocasta, jogando seu eterno game freudiano com Édipo. Ou talvez seja a própria Megera, gritando nos ouvidos dele suas falhas e erros e defeitos e limitações e humilhações. 

Aquele que segue a bula e ousa sair do teatro sem se preocupar com o aspecto racional – que cobra, desesperado, que qualquer lógica seja imputada ao relato – poderá, com um pouco de sorte, experimentar o impacto maior do espetáculo: Mensagens cifradas, simbolismos dirigidos ao inconsciente, questões que jamais terão resposta, enigmas psicológicos, personagens mitológicas escondidas por detrás das personagens, do cenário, das poltronas, em meio à platéia. Poderá experimentar, talvez, vagamente, sensações estranhas como a de estar encerrado (por vontade própria) dentro de uma caixa que, ao ser aberta, não mostrará surpresas nem belezas, mas a ameaça constante de um pessimismo sombrio e sem cura, do sadismo e do masoquismo, inerentemente humanos, obscuramente humanos.

Assim, O Grande Cerimonial não é só um grande espetáculo. É uma viagem ao mundo do inconsciente.

Primeira montagem no Brasil

A montagem do Teatro Kaus (2010/2011) foi a primeira do texto (escrito em 1963) no Brasil. Seu autor, Fernando Arrabal, é o dramaturgo espanhol mais encenado no mundo. E um dos poucos autores vivos do movimento conhecido como ‘Teatro do Absurdo’, que tem em Samuel Beckett seu maior expoente.

Nela, o diretor Reginaldo Nascimento privilegiou o universo surrealista de Arrabal, além das interpretações, que impressionam pelo trabalho marcante de corpo e pela intensidade. Alessandro Hernandez fez de Cavanosa, seu personagem, uma pequena obra-prima. A moça-boneca, encarnada por Amália Pereira, nos dá a sensação de que seus olhos de cílios longos, estalados, e quase sempre perdidos no vazio nos perseguirão pelas ruas quando sairmos do teatro, até nossas casas, nossas camas, nossos sonhos. Debborah Scavone será, doravante, pra mim, a imagem mais bem terminada da Megera, não somente da personagem mitológica, mas, sobretudo, do conceito do mito. Não gostaria de vê-la e ouvi-la cobrando minhas faltas dia após dia. E Angelo Coimbra, completa, com competência, o elenco. Há momentos nos quais os atores permanecem estáticos por instantes, com suas intenções petrificadas, suas fortíssimas expressões, uma viagem estética e sensorial que nos faz lembrar o quanto todas as formas de expressão artísticas estão ligadas de alguma forma. E que o Teatro Brasileiro está bem vivo, até que se prove o contrário.

Por Alexandre Gennari

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Uma resposta para O grande cerimonial

  1. trajano candelária disse:

    Dirigida pelo Reginaldo e protagonizada pela Amália… só podia ser coisa muito, muito boa, mesmo… parabéns a todos …

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