De volta a Santa Cruz do Sul

Alexandre Gennari – Crônicas – Cinema

 

Santa Cruz do Sul é uma cidade de colonização alemã que fica a oeste de Porto Alegre. Lá fica a maior catedral em estilo gótico da América do Sul e os motoristas usam pisca-pisca até pra mudar de faixa. Conheci Santa Cruz em 1985, trabalhando durante a II Oktoberfest, que tinha todas as atrações da Oktober de Blumenau, mas pequenina, meio caseira, quase familiar. Me apaixonei pela cidade, pela festa e pela Raquel, dona do par de olhos (e de pernas) mais lindos pelos quais eu já me apaixonei. Ela tinha 19 anos. Eu, 21, e dizia que o Brasil cabia na palma da nossa mão. E cabia. Dizia também que as despedidas são necessárias pra que pessoas que se gostam possam se encontrar de novo. Nesta ou em outras vidas. Era verdade.

Este ano Santa Cruz vai realizar a 28a Oktoberfest e eu vou comemorar 49 anos (vividos a mil, como diz o Lobão, como viveu a minha geração nos anos 1980). 27 anos se passaram até eu reencontrar Santa Cruz e a Raquel. Voltar lá foi um desses presentinhos que a vida vive oferecendo pra gente, mas que a maioria das pessoas prefere nem abrir o pacote, com medo do que pode encontrar lá dentro. Dessa vez não fui pra Oktober, mas pro I Festival de Cinema de Santa Cruz do Sul, criado pela atriz Patrícia Vilela (santacruzense) e pelo Daniel Gaggini (paulista, como eu). Um evento ainda incipiente, caseiro, quase familiar (como foi a Oktoberfest de 1985), mas uma sementinha plantada nesse nosso Brasil tão carente de cultura, de ideias, de cinema de verdade. Tenho visto tantos filmes de curta-metragem ruins por aí que fiquei surpreso com o alto nível das fitas da mostra competitiva de Santa Cruz. Ano que vem estarei lá de novo, pra rever a Raquel e o segundo Festival de Cinema. E, quem sabe, estarei lá de novo daqui a uns vinte e tantos anos… E direi: Eu vi nascer o Oktoberfest e o Festival de Cinema de Santa Cruz. Eu simplesmente adoro essa cidade!

O plantador de quiabos de Coletivo de Santa Madeira

Sinopse: Uma tragicomédia sobre um agricultor que decide comprar uma bicicleta para aumentar sua produção no campo.

Comentário: Se a premiação do Festival fosse dividida por áreas, “O Plantador de Quiabos” provavelmente ficaria com prêmios como fotografia, arte e direção. Um filme honesto, com ótimos enquadramentos, locações e figurinos. Visualmente, o melhor da Mostra. Entretanto o roteiro, apesar de correto, não acrescenta muito.

On side de Jonas Amarante

Sinopse: Três estrangeiros. Três diferentes histórias de vida. Três realidades distintas. A mesma cidade: Londres. A mesma paixão: futebol.

Comentários: O único documentário do Festival. E o menos envolvente entre os filmes exibidos.

Ao meu pai com carinho de Fausto Noro

Sinopse: Márcio, um jovem de classe média-alta, é vítima de um sequestro relâmpago. Os bandidos erram a ligação telefônica e acabam negociando com Bruno, um jovem entediado de passar as tardes junto com os amigos e jogos eletrônicos.

Comentários: Do ponto de vista do roteiro, é o relato mais surpreendente e bem amarrado da Mostra. Logo nas primeiras sequências, o filho, ao deparar com o pai na porta de sua casa, desfere-lhe um poderoso soco na cara, deixando o espectador estarrecido (tanto quanto o pai desavisado) e devidamente fisgado pela história. Apesar disso, o filme é uma comédia, mas com toques de tensão e suspense. As surpresas continuam quando os sequestradores telefonam para o número errado. Seu maior problema é que, antes do final da ação, pode-se prever o por que do soco no início. Por conta do roteiro, ganhou meu voto.

A menor distância entre dois pontos de Breno Nina e Elias Guerra

Sinopse: O que cabe entre dois pontos? Duas madrugadas, uma câmera, quatro mil reais, seis atores, dois brigadistas, nove pessoas na equipe, setenta e oito sanduíches de presunto com queijo, alface, tomate, cebola e azeitona roxa. Uma ponte.

Comentários: Na dramaturgia, onde há uma ponte, há alguém querendo pular dela. Apesar deste lugar-comum, o roteiro é o mais criativo e ousado entre os filmes exibidos. Opta por um clima non-sense com sacadas surpreendentes e engraçadas. Destaque para a locação. O visual da ponte é muito louco!

Eu não quero voltar sozinho de Daniel Ribeiro

Sinopse: A vida de Leonardo, um adolescente cego, muda completamente com a chegada de um novo aluno em sua escola. Ao mesmo tempo, ele tem que lidar com o ciúme de sua amiga Giovana e entender os sentimentos despertados pelo novo amigo Gabriel.

Comentários: É o filme mais politicamente correto da Mostra, com toques de doçura, ingenuidade e bom-mocismo. Apesar de tratar de homossexualidade, tema sempre controverso, a maneira como a questão é tratada faz de “Eu não quero voltar sozinho” o roteiro mais ameno, simpático e palatável do Festival. Seu maior trunfo talvez seja o fato de conseguir dialogar de forma fácil com o público. Pelo menos públicos menos preconceituosos como, certamente, o de um festival de cinema. Talvez por isso, tenha sido escolhido (pelos espectadores) como o melhor filme da Mostra Competitiva.

 Realização: Prefeitura Municipal de Santa Cruz do Sul – Secretaria de Educação e Cultura – Departamento de Cultura

 Produção: Muk produções – Patrícia Vilela e Daniel Gaggini

 Correalização: Fecomércio RS e Sesc

Apoio: Unisc – Universidade de Santa Cruz do Sul, Gazeta – Grupo de Comunicação, Hotel Santa Cruz, Restaurante Quiosque da Praça e Lupa Gráfica.

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2 respostas para De volta a Santa Cruz do Sul

  1. Pingback: De volta a Santa Cruz do Sul | Webwritersbrasil's Blog

  2. Val disse:

    Recordar é viver! Toda razão do mundo ao dizer que “despedidas são necessárias para se encontrar de novo”. Adorei a cronica.

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