Deonísio da Silva

Literatura – Entrevista – Deonísio da Silva 

Deonísio da Silva é escritor, doutor em letras pela USP e professor. É um “jardineiro e botânico de palavras”. É autor de mais de trinta livros, entre romances, contos, ensaios e literatura infantil. Entre eles, “Avante, soldados: para trás” (vencedor do prêmio internacional Casa de las Américas) e de “Lotte e Zweig.” Há alguns anos, Deonísio concedeu uma entrevista exclusiva ao WebWritersBrasil. Mais atual do que nunca, a entrevista (reeditada) é uma aula sobre a arte de escrever literatura. Confira!

Realização e edição: Alexandre Gennari – Revisão e diagramação: Akemi Sakurai e Murilo Dias César

Destaques

“Publiquei cerca de trinta livros, entre romances, contos, ensaios, crônicas e infanto-juvenis. Não sei em qual dos gêneros meu desempenho é melhor. Os leitores é que devem julgar. Mas gosto de escrever; é minha verdadeira vocação. Como o passarinho canta e o sapo pula, assim escrevo.” 

“O conto está para o romancista como o futebol de salão está para o jogador de futebol de campo. Tudo deve acontecer em espaços e tempos reduzidos.”

“O conto passa por uma crise. A crônica também. Os novos autores estão muito preocupados com aspectos exteriores, como a busca de público, com o apagamento que eles de fato sofrem na mídia. Mas eles não podem abdicar de escrever cada vez mais e melhor! Nenhuma força vence o talento”.

“A narrativa curta e a linguagem de internet estão noivas. O casamento se avizinha. Estão namorando adoidado. Uma não vive sem a outra!”

“Somos o segundo mercado editorial das Américas, já superamos México e Canadá. Uma saúde esplêndida! Mas é preciso avançar sobre as grandes reservas analfabéticas. O livro no Brasil ainda é muito caro, precisa ser democratizado”.

“Quando eu tinha cerca de dez anos, fui posto num seminário, de onde fui expulso amigavelmente por volta dos dezesseis. Ali constava o motivo da expulsão de cada um de nós. Uma das motivações da minha expulsão foi uma excessiva independência intelectual“.

Entrevista

Webwritersbrasil: Fale-nos um pouco sobre seu trabalho como escritor. Como começou e quais são os seus principais trabalhos?

Deonísio da Silva: Publiquei cerca de trinta livros, entre romances, contos, ensaios, crônicas e infanto-juvenis. Não sei em qual dos gêneros meu desempenho é melhor. Os leitores é que devem julgar. Mas gosto de escrever; é minha verdadeira vocação. Como o passarinho canta e o sapo pula, assim escrevo. Eles não sabem porque, nem eu, esta é a nossa condição. Mas acho que de tudo o que já publiquei, nada superou Avante, Soldados: Para Trás [premiado pela Casa de Las Américas em júri comandado por José Saramago], que escrevi com muito sofrimento. Foi uma fase muito difícil em minha vida. E fui dezesseis vezes ao teatro de operações da Retirada da Laguna, o trágico e polêmico episódio da Guerra do Paraguai que serve de pano de fundo à história de amor entre inimigos vivida naquele conflito.

Webwritersbrasil: Além de escritor, o senhor é um militante da literatura brasileira. Quais são suas outras atividades nas letras?

Deonísio da Silva: Sou um homem inteiramente dedicado às letras. Por onde passei, semeei, combati o bom combate. Liderei a equipe que fundou o curso de Letras na UFSCar [universidade federal de São Carlos]. Ali fundei também a Editora Universitária, que dirigi por oito anos. Ao sair, havíamos recebido vários prêmios e, sobretudo, publicado muitos livros.

Webwritersbrasil: Qual é o seu gênero preferido, o romance, o conto ou a crônica?

Deonísio da Silva: Talvez a crônica, eu adoro escrever crônicas. A crônica é mais leve. O conto pode-se criar de repente. Vem a inspiração e, na maioria das vezes, você começa e termina a narrativa no mesmo dia, mesmo que volte para polir depois. Já o romance, precisa ficar de molho muito mais tempo, resulta em trabalhos mais bem cuidados, mas nele empregamos uma energia que nos exaure.

Webwritersbrasil: O senhor organizou para a Global editora uma coletânea de contos do Ignácio de Loyola Brandão. Sua apresentação do livro é uma verdadeira aula sobre o gênero conto. Um trecho desta apresentação, reproduzimos no Webwritersbrasil na seção ‘A Arte do Conto’. Como o senhor define o gênero literário conto?

Deonísio da Silva: O conto está para o romancista como o futebol de salão está para o jogador de futebol de campo. Tudo deve acontecer em espaços e tempos reduzidos.

Webwritersbrasil: Daniel Piza, articulista do Estadão, dizia que nos últimos anos o conto como gênero passou por uma “ressurgimento.” O que o senhor pensa a respeito e como relaciona a narrativa curta com as novas linguagens e com a internet, por exemplo?

Deonísio da Silva: Conquanto as narrativas curtas tenham revelado grande versatilidade de linguagens, temas, problemas e personagens; o melhor de nossas letras nas duas últimas décadas tem vindo do romance e da poesia. O conto passa por uma crise. A crônica também. Os novos autores estão muito preocupados com aspectos exteriores, como a busca de público, com o apagamento que eles de fato sofrem na mídia. Mas eles não podem abdicar de escrever cada vez mais e melhor! Nenhuma força vence o talento.

Eu gosto de dar nomes, não me furto de citá-los para que se estabeleçam indispensáveis referências: No Brasil meridional surgiram romancistas como Luiz Antonio de Assis Brasil (“A margem imóvel do rio”), José Clemente Pozenato (“O quatrilho”) e Charles Kiefer (“Valsa para Bruno Stein”). E nenhum contista gaúcho das duas últimas décadas chegou aos pés de Sérgio Faraco, que na verdade é um gênio da narrativa curta. Mas para dar razão, em parte, ao diagnóstico de Daniel Piza, surgiu uma cronista deslumbrante, que é Marta Medeiros. E um poeta de méritos indiscutíveis, o Fabrício Carpinejar. Em Pernambuco, temos um grande romancista, que é Raimundo Carrero. Em Goiás, Miguel Jorge.Em Santa Catarina, um grande cronista: Sérgio da Costa Ramos. E uma poeta exemplar, a Maria Odete Olsen. Em todo o Brasil surgiram bons escritores.

Com relação à narrativa curta e a linguagem de internet, eu diria que elas estão noivas. O casamento se avizinha. Estão namorando adoidado. Uma não vive sem a outra!

WWB: Qual é a sua experiência com internet? O senhor escreve para o Observatório da imprensa

Deonísio da Silva: Sim, no Observatório da Imprensa, onde publico artigos inéditos toda semana. Escrever no OI é uma fonte de grandes prazeres graças ao convívio intelectual com esta doce criatura e profissional admirável que é o Luiz Egypto [editor-chefe do OI]. Todos os dias agradeço o convite que recebi do Alberto Dines, mestre de todos nós, para escrever no Observatório.

WWB: Em entrevista ao Webwritersbrasil o escritor Milton Hatoum disse que: “A internet é uma oportunidade para aqueles escritores, sobretudo jovens, que não conseguem publicar. A web dá ao escritor a chance de ser lido e depois publicado. É uma mediação entre o ineditismo e o livro.” Como o senhor vê a produção de literatura na internet e a relação entre um e outro?

Deonísio da Silva: Tenho dúvidas a respeito dessa afirmação tão categórica do Milton Hatoum. Sem texto impresso não há escritor. E a mediação, muitas vezes, tem deixado o candidato a escritor pelo caminho. Os textos na internet e os textos impressos se complementam, mas enquanto o segundo tem vida própria, o primeiro ainda está dando seus passos iniciais, embora corajosos. Os textos da internet são indispensáveis, mas eles ainda dependem muito do impresso. De todo modo, é um caminho bonito e cheio de boas surpresas.

WWB: Descartada a hipótese de que o livro virtual substituirá o impresso, o que o senhor acha dele?

Deonísio da Silva: É um novo caminho para o livro. Pertinente, ágil, prático, indispensável. O Observatório da Imprensa deu oportunidade ao seu leitorado de baixar livros inteiros. Mas são feitos isolados, apesar de bastante. E a qualidade do Webwritersbrasil, visitado e pesquisado por gente do mundo todo, é mais uma prova de que as coisas vão bem.

WWB: Como o senhor avalia o mercado editorial no Brasil?

Deonísio da Silva: Somos o segundo mercado editorial das Américas, já superamos México e Canadá. Uma saúde esplêndida! Mas é preciso avançar sobre as grandes reservas analfabéticas. O livro no Brasil ainda é muito caro, precisa ser democratizado. O mercado editorial brasileiro tem que ter competência para romper o terrível círculo: edições caras porque diminutas. É preciso aumentar corajosamente as tiragens e baixar os preços.

WWB: Quais são os seus autores preferidos?

Deonísio da Silva: No Brasil: Machado de Assis, Érico Veríssimo, Jorge Amado, João Guimarães Rosa, Adelino Magalhães, Lygia Fagundes Telles. No exterior: Dostoiévski, Borges, Proust, Balzac, Joyce, Kafka.

Webwritersbrasil: Fale-nos um pouco sobre sua formação profissional. 

Deonísio da Silva: Quando eu tinha cerca de dez anos, minha mãe teve vocação para eu ser padre. Fui posto num seminário, de onde fui expulso amigavelmente por volta dos dezesseis anos. Os padres tinham certeza de que eu jamais seria um bom padre. Décadas depois, na companhia de outros colegas desligados por motivos semelhantes, voltamos ao seminário e um dos padres mostrou-nos um livro de capa preta, parecido com o de São Cipriano, que ensinava a fazer feitiços. Ali constava o motivo da expulsão de cada um de nós. Um dos meus era “excessiva independência intelectual”. Mas foi ali que na relação bunda-cadeira-hora eu mais estudei na vida! Grego, latim, português, História!

Mas me formei em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul onde defendi minha dissertação de mestrado também. Sou Doutor em Letras – Literatura Brasileira, pela Universidade de São Paulo (USP). E fui professor universitário no Rio Grande do Sul eem São Paulo, de1975 a 2003.

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3 respostas para Deonísio da Silva

  1. Pingback: Entrevista Deonísio da Silva | Webwritersbrasil's Blog

  2. u2nobrasil disse:

    Acho que há um abismo entre a literatura de entretenimento e a literatura cult, artística, que às vezes chamamos de “mainstream”. Esse abismo é perceptível sobretudo nos leitores jovens. Conversando com alguns desses blogueiros que se dizem apaixonados por livros, percebi que muitos nunca tinham ouvido falar de caras como Cristovão Tezza e Milton Hatoum. Vejo isso como um enorme problema. O Deonísio tem razão: nossas tiragens são ridículas. É lamentável que, num país com 190 milhões de habitantes, uma tiragem de 4 mil exemplares seja considerada alta. Mas, qual é a proposta? Aumentar as tiragens de QUAIS livros? Essa é a questão. Num mercado dominado por padres celebridades, espíritos encarnados e pregadores de lições de vida, a literatura de entretenimento, a meu ver, é a salvação, embora eu prefira a outra.

    • Alexandre Gennari disse:

      Totalmente de acordo, Pablo. Some-se ao Cristóvão e ao Milton o JP Cuenca, Paulo Scot (q está com um livro ótimo: Habitante Irreal), Andréa Del Fuego (indicada ao Jabuti por Os Malaquias), Joca Reiners Terron (q acaba de lançar Guia de ruas sem saída), o próprio Deonísio… e por aí vai… realmente não consigo elaborar uma proposta q pareça viável

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