Bíbi da Pieve

Literatura – Entrevista – Bíbi da Pieve

 

Bíbi da Pieve é cronista, letrista e baixista.  Estudou jornalismo e hoje participa de uma oficina de novos autores na TV Globo. Foi colunista da revista Época e vencedora de um concurso de microcontos promovido pela ABL.  

Realização e edição: Ale Gennari – Revisão e diagramação: Akemi Sakurai e Murilo Dias César

Destaques

“Eu fiz jornalismo em São Leopoldo. Quando tive de decidir por uma carreira, a única coisa que me ocorreu foi escrever…”

“A crônica tem elementos que se identificam com a linguagem musical. Você tem que dizer o que quer num determinado tempo, de forma concisa. A crônica tem um ritmo, algumas vezes até um refrão. Crônica é música! Eu elegi a crônica como meu gênero preferido. Sou uma militante da crônica!”

“A crônica é uma coisa avulsa, o leitor não tem nenhum compromisso com aquilo; por isso, se você não pegá-lo no primeiro parágrafo, não pega mais. A crônica é uma ‘ficada’, não é um namoro [risos]. O primeiro beijinho tem que ser bom, isso é coisa de ritmo… tanto no primeiro beijinho, quanto no primeiro parágrafo (…) Eu prefiro a crônica com qualidade literária, que possa virar namorado”.

“A crônica é muito viável na net, mas há um outro tipo de texto que pode ser ainda melhor. Algo mais curto como uma crônica com a bainha maior, uma coisa charmosa, muito presente nos blogs, um texto que fique entre o jornalístico e o literário.”

“O mercado editorial brasileiro é competente, é um mercado sobrevivente porque enfrenta todos aqueles problemas que estamos carecas de saber (…) É preciso ter coragem para colocar em pé um projeto editorial. Precisamos amadurecer… Mas sou otimista! A maioria das pessoas acha que não, mas a meu ver há muita gente disposta a apostar em novos autores.”

 

WebWritersBrasil: Fale-nos um pouco sobre sua formação profissional.

Bíbi Da Pieve:
Fiz jornalismo em São Leopoldo. Quando tive que decidir por uma carreira, a única coisa que me ocorreu foi escrever. Não pensava em ser escritora, mas achava que podia ser jornalista, talvez trabalhar em rádio. Mas não concluí o curso, tranquei a matrícula e me mudei para o Rio de Janeiro.

WebWritersBrasil: É comum aquela pessoa que escreve bem optar por um curso de jornalismo. Mas isso pode ser um engano…

Bíbi Da Pieve: Há um momento em que precisamos procurar algo que, além de ser um meio de vida, nos motive. Assim, quem escreve acaba escolhendo entre o jornalismo e a propaganda.

WebWritersBrasil: Talvez por falta de opção. Se houvesse uma escola de escritores ou algo assim, seria diferente.

Bíbi Da Pieve: Muita gente se sentiria atraída. Hoje, eu não faria jornalismo.

WebWritersBrasil: Você trabalha com música também?

Bíbi Da Pieve: Quando entrei na faculdade, aos 16 anos, já trabalhava com música desde os 13. Meu irmão é guitarrista. Eu sou baixista, cantora e letrista. Nós formamos uma banda que cresceu muito rápido. São Leopoldo é uma cidade pequena. De repente, tínhamos shows todos os finais de semana e começamos a ganhar dinheiro. Quando entrei na faculdade, o jornalismo era uma coisa complementar, eu queria mesmo era ser cantora.

WebWritersBrasil: Essa coisa de escrever, como começou?

Bíbi Da Pieve: Eu escrevia muito na escola e os professores me incentivavam. Sempre que havia alguma atividade ligada à escrita, eu logo era chamada. A escolha do curso de jornalismo foi uma forma de tentar descobrir o que fazer com essa coisa de escrever que eu não encarava como profissão.

WebWritersBrasil: Além de crônicas, o que mais você escreve? Qual é o seu gênero preferido?

Bíbi Da Pieve: O primeiro texto que escrevi para dar certo e mostrar para os outros foi música. Só bem depois fui pensar em outros formatos.

Já pensei em escrever um romance, tenho alguns poucos contos, mas a crônica me fascina: ela tem elementos que se identificam com a linguagem musical. Você tem que dizer o que quer num determinado tempo, de forma concisa. A crônica tem um ritmo, algumas vezes até um refrão. Crônica é música!

WebWritersBrasil: Isso lembra Rubem Braga, que não se deixou seduzir pelos chamados “gêneros nobres” da literatura, e dedicou-se exclusivamente à crônica.

Bíbi Da Pieve: Elegi a crônica como meu gênero preferido. Sou uma militante da crônica!

WebWritersBrasil: Você já publicou algo em livro? Coletânea das suas crônicas, por exemplo?

Bíbi Da Pieve: Participei de uma coletânea chamada “Os Anjos de Prata”. O Mário Prata estava escrevendo um livro online. Ele escrevia um capítulo por dia, usando uma webcam para que as pessoas pudessem vê-lo escrevendo e acompanhar a evolução do texto em tempo real. O livro chamava-se “Os anjos de Badaró”. Em torno dessa iniciativa, surgiu uma legião de fãs que acompanhava o trabalho dele diariamente. Esse grupo ficou conhecido como Anjos de Prata. Muitos deles resolveram aproveitar o canal para mandar textos. Quando o Mário percebeu que havia muita coisa boa, resolveu fazer um concurso de crônicas para novos autores que resultou na coletânea.

WebWritersBrasil: Como você define a crônica?

Bíbi Da Pieve: Na crônica, você tem que dizer algo interessante num espaço curto. Aí está a surpresa! Isso pode até parecer simplório, mas a boa crônica é como um tiro certeiro e isso é muito difícil. É preciso secar, secar, secar… tirar elementos dispensáveis, que não acrescentam nada, cuidar do ritmo… A crônica é uma coisa avulsa, o leitor não tem nenhum compromisso com aquilo; por isso, se você não pegá-lo no primeiro parágrafo, não pega mais. A crônica é uma “ficada”, não é um namoro [risos]. O primeiro beijinho tem que ser bom, isso é coisa de ritmo… tanto no primeiro beijinho, quanto no primeiro parágrafo.

WebWritersBrasil: Engana-se quem acha que escrever crônicas é mais fácil por causa da brevidade?

Bíbi Da Pieve: Sim. A não ser aquela crônica que não tenha valor literário. Mas eu prefiro a crônica que possa virar namorado.

WebWritersBrasil: Diversas características da crônica — como a brevidade, a liberdade de temas e o coloquialismo — têm tudo a ver com a internet. Você acha que a crônica é o formato ideal de linguagem literária na net?

Bíbi Da Pieve: O coloquialismo da crônica se encaixa como uma luva na linguagem de internet, com seu público jovem, novidadeiro, ávido por conteúdo. Fisgar alguém que está diante da tela de um computador é bem diferente de fisgar quem está confortavelmente sentado na poltrona ou deitado no sofá. A crônica é muito viável na net, mas há um outro tipo de texto melhor ainda. Algo mais curto como uma crônica com a bainha maior, uma coisa charmosa, muito presente nos blogs, um texto que fique entre o jornalístico e o literário.

WebWritersBrasil: Aquela coisa das Corruíras Nanicas, do Dalton Trevisan, do microconto, você acha que é mais ou menos por aí?

Bíbi Da Pieve: Acho que sim. Algo que passa o que tem que passar o mais rápido possível, mas sem perder a graça e a qualidade artística. É um caminho interessante e inteligente.

WebWritersBrasil: Você já produziu alguma coisa nesse formato?

Bíbi Da Pieve: Sim. Estes textos têm muita receptividade. As pessoas não lêem um blog por dia, elas dão uma passada rápida pelos blogs prediletos. Se você não tiver uma boa manchete, não leva o leitor para a notícia. A criação literária via net tem que ter esse atrativo também.

WebWritersBrasil: Tem muito escritor novato que se projetou via net. Você não usou esse caminho?

Bíbi Da Pieve: Não. Mas há bons escritores que surgiram na rede. A Clara Averbuck começou por meio de um blog. Eu acompanho seu trabalho e gosto muito do que ela produz. Eu fiz parte de uma revista literária veiculada na web. Comecei como colaboradora e depois me tornei colunista. Foi um exercício fantástico.A vantagem da rede é o surgimento de pequenas comunidades nas quais o escritor pode se tornar conhecido. Bem diferente de antigamente, quando você ficava escondido num canto, com um calhamaço de papel, sem saber o que fazer com aquilo. E, de certa forma, eu cheguei ao concurso do Mário Prata, que me levaria à revista Época, via internet.

WebWritersBrasil: Você foi cronista da Revista Época. Fale sobre sua ascensão, de jovem escritora em busca de espaço à cronista de Época no lugar do Mário Prata.

Bíbi Da Pieve: A versão do Aluísio Falcão Filho, editor de Época na época, é superfiel, factual, jornalística, como não poderia deixar de ser. Depois de participar do concurso no site do Mário Prata, ele passou a me incentivar. Comecei a acreditar que poderia ser escritora de verdade e passei a dar mais atenção a isso. Mas o Mário não indicou só o meu nome para sucedê-lo. Talvez o Aluísio tenha achado interessante a surpresa: quem é essa Bíbi Da Pieve? Eu escrevia em um espaço da revista que era dedicado à mulher, tanto que eu dividia a coluna com a Maitê Proença. Isso também pesou. O perfil de alguém que escrevesse para a mulher, alguém jovem… Acho que eu estava no lugar certo, na hora certa… Mandei alguns textos para o Aluísio e ele disse que ainda ia conversar com várias pessoas, mas já no dia seguinte recebi uma proposta dele. Eu me senti privilegiada, estimulada e com muita responsabilidade por estrear num veículo do porte da Época.

WebWritersBrasil: Na época você foi escolhida pelo WWB como ícone na luta de novos autores (webwriters, roteiristas e escritores) por espaço nos grandes veículos de comunicação e nas editoras. Qual a sua mensagem aos novos escritores que buscam oportunidades?

Bíbi Da Pieve: Viver de arte é complicado não só na literatura, mas na música também. A internet, se levada a sério, é uma boa ferramenta para a prática da escrita. Mas é preciso ter cuidado com os quinze minutos de fama. Não é porque você está na internet que todo mundo vai te ver. Tem muuuuita coisa na rede. É preciso ter certeza de que aquilo que você escreve é bem feito, que não é só um capricho. Agora, como chegar aos grandes veículos, eu não sei! Não fui galgando até chegar lá, foi uma coisa meio de lado. A oportunidade apareceu e eu a agarrei. Não posso ficar com esse título de ícone, porque não mereço.

WebWritersBrasil: Mas você só chegou à Época porque tem talento. Não foi um milagre.

Bíbi Da Pieve: É verdade. Quando digo que não merecia, não estou menosprezando meu talento, mas não batalhei passo a passo para atingir um grande veículo. Mas é claro que só cheguei à Época porque tenho talento.

WebWritersBrasil: Escrever é desgastante pra você?

Bíbi Da Pieve: É muito divertido e por isso vale a pena. Mas, por outro lado, é muito trabalhoso também. Não é pra todo mundo. Quem está começando precisa se perguntar se é isso mesmo que deseja e observar se as pessoas que lêem endossam seu talento. É importante procurar gente que entenda do assunto, não precisa ser um Mário Prata, pode ser um professor.

WebWritersBrasil: O que você acha da idéia de que grandes escritores brasileiros “Adotem um Escritor” novato como forma de criar uma nova safra de bons escritores?

Bíbi Da Pieve: Alguns escritores já fazem isso, mas nem sempre a gente fica sabendo. Volta e meia tem uma “orelha” no livro de um novato, escrita por um escritor experiente. Eu acho válido, é fundamental ouvir pessoas experientes.

WebWritersBrasil: Embora você ainda não tenha publicado um livro de sua autoria, como você avalia o mercado editorial no Brasil?

Bíbi Da Pieve: O mercado editorial brasileiro é competente e é um mercado sobrevivente, porque enfrenta todos aqueles problemas que estamos carecas de saber: falta de bibliotecas, baixa qualidade do ensino, pequeno público leitor… É preciso ter coragem para colocar em pé um projeto editorial. Tanto o autor, quanto o editor. Há muitos profissionais bem preparados, mas há muito amadorismo também. Precisamos amadurecer… Mas sou otimista! A maioria das pessoas acha que não, mas a meu ver há muita gente disposta a apostar em novos autores.

WebWritersBrasil: Há um aspecto complicado nisso tudo: a questão da formação de público leitor. Quais são os caminhos para superarmos isso?

Bíbi Da Pieve: A própria crônica na revista é uma forma de formarmos leitores. Outro aspecto importante é que os professores indiquem leituras adequadas a seus alunos, conforme a faixa etária. Não dá pra ler Machado de Assis e Guimarães Rosa aos doze anos!

WebWritersBrasil: Quem são os seus autores preferidos?

Bíbi Da Pieve: Mário Prata, Moacir Scliar, Érico e Luís Fernando Veríssimo, Lia Luft, João Ubaldo Ribeiro…

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