Fellini oito e meio

Roteiros – Cultura – Filmoteca do Roteirista

Direção: Federico Fellini – 1963 – Itália – Drama – 138 min. – Roteiro: Fellini, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano e Bruno Rondi – Elenco: Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Anouck Aimée

Sinopse: Cineasta entra em crise às vésperas de iniciar as filmagens de uma nova fita. Enquanto isso, deixa sua mente passear entre sonhos e delírios.

Comentários: “Minhas idéias pareciam tão claras… Eu queria fazer um filme honesto, sem nenhuma mentira, achava que tinha algo tão simples a dizer… o meu filme seria um pouco útil para todos e ajudaria a enterrar o que de morto nós carregamos… Mas sou o primeiro a não ter coragem de enterrar nada. E agora tenho a cabeça confusa”. Esta fala é da personagem de Marcello Mastroiani em Oito e Meio, mas poderia muito bem ser do próprio Fellini, uma vez que a fita é essencialmente autobiográfica. O protagonista é um cineasta em crise de inspiração. Por meio desta alegoria, Fellini faz uma auto-crítica de seu trabalho e uma reflexão sobre o cinema. Aliás, um recurso muito usado no meio. Entre outros, Woody Allen, faria o mesmo em A Rosa Púpura do Cairo nos anos oitenta. Oito e Meio destrincha o mundo do cinema brincando com alguns tipos, estereótipos do meio, como o crítico, a estrela, o produtor e o próprio diretor. Há uma cena memorável de adivinhação que nos remete ao universo de Oscar Wilde em O retrato de Dorian Gray, uma obra prima da dramaturgia.

Às vezes, é impossível para o telespectador distinguir o que é realidade do que não é. Mas o que importa? Na verdade, assim como na vida, apenas os sonhos fazem sentido no filme. O resto é making off. Nesses sonhos, carregados de significados e simbologias, o diretor faz uma espécie de auto-terapia a céu aberto. Como na cena em que desce o pai à tumba enquanto beija a boca de sua mãe, exorcizando Édipo sem medo de ser feliz. Como em qualquer processo de análise, há sempre um elemento de sensualidade no filme, fantasias, desejos.

Federico Fellini, talvez o maior nome da história do cinema, é um gênio da imagem. Tudo em seu trabalho é imagem e Oito e meio é também um desfile aleatório de tipos singulares, faces, expressões estranhas e imagem…imagem…imagem… Foi premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro e segundo Rubens Ewald Filho é “a obra prima de Fellini, um filme que resiste à análises e interpretações“. O resultado é um filme honesto, sem mentiras, que nos ajuda, de alguma forma, a enterrarmos aquilo de morto que carregamos.

Roteiro: A narrativa transita entre a realidade, o sonho, as lembranças do protagonista e os delírios de sua cabeça. Mas o grande mérito do roteiro é que não importa muito ao espectador saber o que é realidade, o que é sonho, o que são lembranças e o que são delírios. O todo faz sentido e provoca profundas sensações naqueles que estão do lado de cá da tela, nós, espectadores.

Por: Alexandre Gennari

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