O assassinato e outras histórias

Literatura – Cultura – Literatura Recomendada

Anton Tchekhov (Cosac & Naify – 2002 – Contos – 263 págs.)

Sinopse: Além de dramaturgo, Tchekhov foi contista, um dos maiores nomes da narrativa curta de todos os tempos. Esta coletânea reúne seus últimos contos. Além do conto que dá nome ao livro, o destaque é a narrativa “Os mujiques”, com 44 páginas: Doente, o lacaio de um hotel em Moscou decide voltar para a casa de seus parentes no interior da Rússia.

Comentários: Apenas quarenta e quatro anos foram necessários para que o médico russo Anton Tchekhov se tornasse um dos maiores nomes da literatura russa e um dos maiores contistas da história.  Os contos selecionados em “O assassinato e outras histórias”, exatos seis textos, fazem parte de sua última fase. Depois de “No fundo do barranco”, título que fecha a coletânea, Tchekhov só escreveria mais dois contos antes de morrer. As narrativas são mais longas e não têm o viés humorístico de outras fases do autor. Usa muitas personagens e isso aproxima os contos do formato das novelas. Não há  desfecho para as narrativas, os finais são inconclusivos, algo significativo sempre acontece, mas antes do fim. Os contos são apenas recortes da vida que desnudam a Rússia e seu povo antes da revolução de 1917. Mas, acima de tudo, mostram grandes dramas humanos, alcançando assim, universalidade. Dessa forma, fatos e sentimentos vividos por personagens distantes no tempo e no espaço, tornam-se vívidos e envolventes para todos nós, leitores, vivendo o aqui e agora. Em “Os mujiques”, destaque da coletânea, o autor penetra na vida de uma família camponesa no interior da Rússia. Enquanto navega pela pobreza física e espiritual dessa gente, expõe também, de forma belíssima, contundente, a fragilidade do ser humano e de suas relações interpessoais. Fala da cultura e do povo,  da força destrutiva do álcool, da vodca neste caso, consolo de homens sem esperança, que desagrega famílias, fomenta a violência,  a droga legal que acompanha a história do homem. Não importa onde, nem quando. Fala da fome e da miséria do povo, do fanatismo religioso que nutre e nutre-se da ignorância, da estrutura de poder e da cobrança de impostos – quase sempre escorchantes e sempre revertidos em favor das elites. Mas fala também da infância, dos sonhos infantis, das ilusões, apesar da realidade sufocante esboçando um futuro sombrio. Fala dos medos, de crianças e adultos. Fala de desesperança, de indiferença, de desimportância. Fala de gente. Assim fala Anton Tchekhov – não só em “Os mujiques”, mas em toda a coletânea, em toda a sua obra – um gênio que precisou de apenas 44 anos para transformar-ser em um verdadeiro mito.

Trecho: “Vovó, quando voltou para a isbá, pôs-se a comer suas cascas de cevada, e Sacha e Motka, sentadas sobre a estufa, olhavam para ela, contentes porque a vovó violara o jejum e agora iria para o inferno. Elas se consolaram com isso, foram dormir, e Sacha, já deitada, imaginou o juízo final: chamas ardiam em uma fornalha enorme, semelhante a uma olaria, e o Impuro, com seus chifres iguais aos das vacas, todo preto, tangia a vovó para o fogo com um comprido pedaço de pau, como ela enxotava os gansos da horta”.

Por: Alexandre Gennari

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