Uma crônica de Fernando Sabino

Literatura – A Arte da Crônica – Crônicas Comentadas

A Falta que Ela me Faz
Fernando Sabino  

Como bom patrão (1), resolvi, num momento de insensatez, dar um mês de férias à empregada (2). No princípio achei até bom ficar completamente sozinho dentro da casa o dia inteiro. Podia andar para lá e para cá sem encontrar ninguém varrendo o chão ou espanando os móveis, sair do banheiro apenas de chinelos, trocar de roupa com a porta aberta, falar sozinho sem passar por maluco.

Na cozinha, enquanto houvesse xícara limpa e não faltassem os ingredientes necessários, preparava eu mesmo o meu café (3). Aprendi a apanhar o pão que o padeiro deixava na área — tendo o cuidado de me vestir antes, não fosse a porta se fechar comigo do lado de fora, como na história do homem nu. Esticar a roupa da cama não era tarefa assim tão complicada: além do mais, não precisava também ficar uma perfeição, já que à noite voltaria a desarrumá-la. Fazia as refeições na rua, às vezes filava o jantar de algum amigo e, assim, ia me agüentando, enquanto a empregada não voltasse.

Aos poucos, porém, passei a desejar ardentemente essa volta. O apartamento, ao fim de alguns dias, ganhava um aspecto lúgubre de navio abandonado. A geladeira começou a fazer gelo por todos os lados — só não tinha água gelada, pois não me lembrara de encher as garrafas. E agora, ao tentar fazê-lo, verificava que não havia mais água dentro da talha. Não podia abrir a torneira do filtro, já que não estaria em casa na hora de fechá-la, e com isso acabaria inundando a cozinha. A um canto do quarto um monte de roupas crescia assustadoramente. A roupa suja lava-se em casa — bem, mas como? Não sabia sequer o nome da lavanderia onde, pela mão da empregada, tinham ido parar meus ternos, provavelmente para sempre.

E como batiam na porta! O movimento dela lá na cozinha, eu descobria agora, era muito maior do que o meu cá na frente: vendedores de muamba, passadores de rifa, cobradores de prestação, outras empregadas perguntando por ela. Um dia surgiu um indivíduo trazendo uma fotografia dela que, segundo me informou, merecera um “tratamento artístico”: fora colorida à mão e colocada num desses medalhões de latão que se vêem no cemitério.

— Falta pagar ainda trezentos cruzeiros — disse o homem.

Paguei o que faltava, que remédio? Sem ao menos ficar sabendo o quanto a pobre já havia pago. E por pouco não entronizei o retrato na cabeceira de minha cama, como lembrança daquela sem a qual eu simplesmente não sabia viver (4).

Verdadeiro agravo para a minha solidão era a fina camada de poeira que cobria tudo: não podia mais nem retirar um livro da estante sem dar logo dois espirros. Os jornais continuavam chegando e já havia jornal velho para todo lado, sem que eu soubesse como pôr a funcionar o mecanismo que os fazia desaparecer. Descobri também, para meu espanto, que o apartamento não tinha lata de lixo, a toda hora eu tinha de ir lá fora, na área, para jogar na caixa coletora um pedacinho de papel ou escravizar um cinzeiro.

Havia outros problemas difíceis de enfrentar. Um dos piores era o do pão (5): todas as manhãs, enquanto eu dormia, o padeiro me deixava à porta um pão quilométrico, do qual eu comia apenas uma pontinha — e na cozinha já se juntava uma quantidade de pão que daria para alimentar um exército, não sabia como fazer parar. Nem só de pão vive o homem.

Eu poderia enfrentar tudo, mas estar ensaboado debaixo do chuveiro e ouvir lá na sala o telefonema esperado, sem que houvesse ninguém para atender, era demais para a minha aflição. Até que um dia, como uma projeção do estado de sinistro abandono em que me via atirado, comecei a sentir no ar um vago mau cheiro (6). Intrigado, olhei as solas dos sapatos, para ver se havia pisado em alguma coisa lá na rua. Depois saí farejando o ar aqui e ali como um perdigueiro, e acabei sendo conduzido à cozinha (7), onde ultimamente já não ousava entrar.

No que abri a porta, o mau cheiro me atingiu como uma bofetada. Vinha do fogão, certamente. Aproximei-me, protegendo o nariz com uma das mãos, enquanto me curvava e com a outra abria o forno.

— Oh, não! — recuei horrorizado.

Na panela, a carne assada, que a empregada gentilmente deixara preparada para mim antes de partir, se decompunha num asqueroso caldo putrefato, onde pequenas formas brancas se agitavam.

Mudei-me no mesmo dia para um hotel.

texto extraído do livro “Obra Reunida” – A reprodução deste texto tem fins exclusivamente didáticos.

Notas: (1)  O bom patrão é uma personagem de si mesmo. A história, com início, meio e fim, parece um conto – (2)  Capta o irrisório do cotidiano – (3)  Flagrante de incidente doméstico – (4)  Compõe um tipo urbano tradicional: a empregada doméstica – (5)  Leveza da forma e do tema, mas com crítica nas entrelinhas – (6)  Humor – (7)  Situação tragicômica da realidade urbana.

Comentários: Em suas crônicas, Sabino busca sempre o pitoresco ou o irrisório do cotidiano. Recria flagrantes de esquina, palavras de uma criança ou incidentes domésticos; colocando em cena pessoas semelhantes a tantas outras que conhecemos. Assim, cria tipos urbanos marcantes, compondo um amplo painel da vida urbana. Muitas vezes, abandona o diálogo direto com o leitor, desviando o foco narrativo da primeira para uma falsa terceira pessoa: O narrador reassume sua máscara ficcional, embora saibamos que quem fala na crônica é sempre o cronista. Com esse distanciamento, Sabino fica à vontade para explorar o humor das situações tragicômicas da realidade urbana, em contraponto com o espaço rural. Mesmo não utilizando o diálogo direto com o leitor, o dialogismo permanece nas entrelinhas, como suporte básico de suas crônicas. Assim, cria uma cumplicidade com o leitor. Em alguns casos recorre a diálogos com a ausência do narrador, criando um texto que fica entre a crônica e o conto. Sabino compõe um texto cuja característica básica é a leveza, mas sempre com visão crítica. Com humor, denuncia as formalidades sociais que tentam enquadrar o indivíduo, eliminando sua criatividade. (Por Alexandre F. Gennari)

Fonte: Este texto foi elaborado à partir dos estudos de Jorge de Sá sobre a crônica como gênero literário, parte integrante do livro “A Crônica” – Editora Ática – Série Princípios.

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2 respostas para Uma crônica de Fernando Sabino

  1. Pingback: Uma crônica de Fernando Sabino | Webwritersbrasil's Blog

  2. gennari disse:

    IVANILDAAAAAAAAAAAAAA

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