Octaedro

Literatura – Cultura – Literatura Recomendada

 

 Julio Cortazar (Civilização brasileira – 1964 125 págs. – Contos)

Sinopse: Coletânea de contos do escritor argentino Júlio Cortázar (1914 – 1984). São oito narrativas curtas, com destaque para ‘Verão’, na qual um casal que vive em um pequeno sítio recebe a filha de um amigo para dormir com eles. Além da menina, eles receberão uma outra visita inesperada durante a noite.

Comentários: O argentino Julio Cortázar não foi só um grande contista, mas um estudioso do gênero que definiu a narrativa curta da seguinte forma: “Um conto é significativo quando quebra seus próprios limites com essa explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai muito além da pequena e às vezes miserável história que conta (…) o tempo e o espaço do conto têm de estar como que condensados, submetidos a uma alta pressão espiritual e formal para provocar essa ‘abertura’ ”. Por isso, Octaedro não é apenas uma coletânea de contos, é uma aula sobre a arte de escrevê-los. Os melhores textos são ‘Os passos no rastro’ e ‘Verão’. O primeiro fala dos dilemas de um escritor ao escrever a biografia de um poeta que tornou-se um ídolo em seu país. E o segundo, introduz de forma extraordinária o fantástico, elemento primordial na obra de Cortázar. Em mais de um conto, o autor lida com a questão da enfermidade, é o caso de ‘Liliana chorando‘ (o protagonista agoniza na cama de um hospital) e ‘As fases de Severo‘ (família e amigos reunem-se ao redor da cama onde está Severo). Como um personagem ausente, a morte parece rondar os personagens destes contos como um abutre. Está presente também em outros relatos como ‘Os passos no rastro‘, ‘Aí, mas onde, como‘ e ‘Lugar chamado Kindberg’. O absurdo, o mágico, o fantástico – onde estão as geniais simbologias e metáforas criadas por Cortázar – também são recorrentes nos contos deste livro. Surgem de forma arrebatadora, especialmente nas narrativas ‘Verão‘ e ‘Pescoço de gatinho negro‘. Os contos do autor terminam com um sopro, de forma suave, é como se nada tivesse acontecido. Não há conclusões ansiosas que tornariam óbvias as narrativas, nem impactos banais e desnecessários. As conclusões ficam por conta do leitor, o impacto está nas entrelinhas, nos acontecimentos que antecedem o final ou simplesmente na banalidade de um momento ordinário. Como James Joyce, Cortázar limita-se a recortar um instante, um flagrante, onde algo incomum ameaça acontecer. Tudo está nas entrelinhas, no conteúdo sugerido, implícito no texto, de uma forma mágica, que poucos escritores souberam fazer de forma tão perfeita.

Trecho: “(…) mais tarde – a noite girava lentamente com seu céu fervilhando de estrelas – outros ruídos se misturavam no interminável solitário da insônia. A manhã traria as ligações telefônicas, os jornais, o escândalo bem armado em duas colunas. Achou insensato ter pensado por um momento que tudo estivesse perdido, quando bastava um mínimo de presteza e habilidade para ganhar a partida de ponta a ponta. Tudo dependia de umas poucas horas e algumas entrevistas. Se quisesse o cancelamento do prêmio, a recusa da Chancelaria em confirmar sua proposta podiam transformar-se em notícias que o lançariam no mundo internacional das grandes triagens e traduções.  Mas podia também continuar na cama, de costas, sem querer ver ninguém, refugiar-se meses na quinta, refazer e continuar com seus antigos estudos filológicos, suas melhores e já apagadas amizades. Em seis meses estaria esquecido, admiravelmente suprido pelo mais estúpido jornalista de turno no cartaz do sucesso. Os dois caminhos eram igualmente simples, igualmente seguros. Tudo era questão de decidir. E, embora já tivesse decidido, continuou pensando por pensar, escolhendo e dando-se razões para sua escolha, até que o amanhecer começou a esfregar-se na janela, no cabelo de Ofélia dormindo, e o seibo do jardim recortou-se impreciso, como um futuro que coalha em presente, endurece pouco a pouco, entra em sua forma diurna, aceita-a e a defende e a condena à luz da manhã”.

Por: Alexandre Gennari
 
 

 

Uma resposta para Octaedro

  1. Silvia disse:

    Muito bom este post! Parabéns!! Tenho aqui um livro de Cortázar, Todos os Fogos o Fogo – fui até pegar na prateleira mais alta da estante. Dá vontade de ler sem parar! E o curioso é que tem a ver com a pergunta que eu tenho me feito, sobre o tempo da narrativa lá no meu blog/site.

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