Milton Hatoum

Literatura – Entrevista – Milton Hatoum 

Milton Hatoum é escritor, ensaísta e tradutor. Foi professor universitário e jornalista cultural. É colunista do Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo. Sua obra foi traduzida para mais de 10 línguas e publicada em mais de uma dúzia de países. É autor de “Relato de um certo Oriente”, “Dois Irmãos”, “Cinzas do Norte”, “Órfãos do Eldorado” e “A cidade ilhada”, pelos quais recebeu diversos prêmios, como o Jabuti e o Portugal Telecom.

Realização e edição: Ale Gennari – Revisão e diagramação: Akemi Sakurai e Murilo Dias César

Destaques

“Nos anos 70, mandei meus contos para a [escritora] Nélida Piñon. Ela falou a meu respeito a um editor do Rio que procurava manuscritos: “Tem um rapaz perdido lá em Manaus que escreve uns contos…” [risos]. Eu tinha acabado de escrever “Relato de Um certo Oriente” e enviei o manuscrito para esse editor. Ele silenciou durante um ano e meio!”

“Como escritor posso viver melhor do que 70% dos brasileiros, que ganham um salário indigno e vivem muito mal. Eu não ambiciono levar uma vida luxuosa. Isso ficou claro quando saí de Manaus ainda jovem. Para escrever é preciso sacrificar algo.”

“Uma das boas definições [sobre conto] é do Júlio Cortázar, que dizia que um conto deve encerrar tensão, intensidade e significação (…) Cortázar insiste muito na questão da brevidade. Mas esse não é o único ponto. Há contos de uma página e outros de dez, quinze páginas… É aí que a coisa começa a complicar.”

“A partir de um certo limite – que ninguém sabe dizer qual é, porque não se pode reduzir essa questão simplesmente ao número de páginas – o autor passa a acreditar que aquela história pode render mais, que o personagem pode se desdobrar. Quando isso acontece, o gênero aponta para a novela ou mesmo para o romance.”

“A internet é uma oportunidade para aqueles escritores, sobretudo jovens, que não conseguem publicar. A web dá ao escritor a chance de ser lido e depois publicado. É uma mediação entre o ineditismo e o livro.”

“O livro tem mais de 500 anos! Eu vejo a publicação virtual como uma alternativa. No mundo de hoje, é preciso pensar em alternativas. Há verdades políticas que não são ditas na grande imprensa, mas são ditas na internet.”

“A língua portuguesa falada no Brasil é muito maleável e receptiva a todo tipo de influência, neologismos, gírias, estrangeirismos. Não acredito que a internet vá desvirginar a língua… Mas, se for o caso, que deflore de uma vez por todas os cânones, as regras e as normas… Muitos escritores já usaram palavras estrangeiras, desde o modernismo e mesmo antes (…) Além disso, nenhum idioma vernáculo é puro, não são armaduras rígidas. As línguas, como as culturas, não são impermeáveis, são miscigenadas.”

“O escritor, a partir de um certo momento de sua vida, volta a ler os grandes livros e aqueles que não teve tempo para ler. Eu prefiro falar em grandes livros a falar em cânones. Essa história de cânone também é um saco! Tudo vira cânone!”

Entrevista

Webwritersbrasil: Fale-nos um pouco sobre sua formação profissional.

Milton Hatoum: Não fui formado para ser escritor, não nasci e não engatinhei no meio de livros. Minha formação de leitor se deu na escola pública, sempre gostei muito de ler, o que é fundamental para quem quer escrever. A leitura é uma etapa que antecede à escrita. Eu me formei em arquitetura na USP, trabalhei como jornalista e professor. Só nos anos 1980, quando fui morar em Madri, comecei a pensar em escrever um romance.

Webwritersbrasil: Foi na Espanha que tudo começou?

Milton Hatoum: Na verdade, eu publiquei meu primeiro poema em 1969, no Correio Braziliense. Depois, nos anos 1970,em São Paulo, escrevi alguns contos que nunca foram publicados. Em 1978, publiquei um livrinho de poesias com fotografias da Amazônia. E termina aí minha história de poeta bissexto, encalacrado para sempre.

Webwritersbrasil: Você só retomaria a atividade de escritor em 1989, é isso?

Milton Hatoum: É. Com a publicação de “Relato de um Certo Oriente”, que foi meu primeiro romance. Nesse meio tempo, foi um silêncio absoluto. Começar com uma ótima editora, a Companhia das Letras, foi fundamental, e com a orelha do livro assinada por um grande crítico, o Davi Arrigucci Jr. Mas tive um pouco de sorte. O livro foi bem recebido pela crítica, ganhou o prêmio Jabuti, foi traduzido para seis línguas e adotado em escolas e universidades… Cada livro faz a sua história. Mas eu demorei muito tempo, uns quatro ou cinco anos, para escrevê-lo e mais de dois anos para publicá-lo.

Webwritersbrasil: Fale-nos um pouco sobre o processo de publicação de seu primeiro livro.

Milton Hatoum: Nos anos 1970, mandei meus contos para a [escritora] Nélida Piñon. Ela falou a meu respeito para um editor do Rio que procurava manuscritos: “Tem um rapaz perdido lá em Manaus que escreve uns contos…” [risos]. Eu tinha acabado de escrever “Relato de um Certo Oriente” e enviei o manuscrito para esse editor. Ele silenciou durante um ano e meio! Mas não fui atrás. Eu não tenho pressa pra nada. Isso é uma característica minha e, quem sabe, bem amazônica. Só tenho pressa para que haja justiça social no Brasil e no mundo. Mas, nesse meio tempo, eu ganhei uma bolsa VITAE, o que me colocou em contato com o Luiz Schwarcz e a Maria Emilia Bender, editores da Companhia das Letras, que gostaram do manuscrito e acabaram publicando o Relato. Foi muito importante o respaldo de uma boa editora. Muitas vezes, um bom livro fica esquecido porque cai em uma editora que não batalha pelo autor. É preciso que haja uma boa distribuição. Eu queria que o meu livro estivesse em Manaus, Belém, Porto Velho, no Amapá, enfim, na Amazônia, onde se encontra a minha origem e talvez o meu fim. E uma boa editora coloca o livro nesses lugares. Hoje, várias editoras fazem isso com muita competência.

Webwritersbrasil: Entre a publicação de “Relato de um Certo Oriente” e ” Dois Irmãos”, seu segundo livro, passaram-se dez anos…

Milton Hatoum: Nesse longo intervalo, publiquei alguns contos na Folha de São Paulo, no Estado de São Paulo e em revistas estrangeiras. Publiquei também alguns ensaios e terminei o manuscrito de um romance, que preferi deixar na gaveta porque ficou muito grande, sofria de elefantíase.

Webwritersbrasil: Você vive exclusivamente da literatura?

Milton Hatoum: Eu me dedico quase inteiramente à literatura… Ou melhor, vivo do meu gogó e da palavra escrita. Quer dizer, um pouco de tudo: dos cursos, das palestras, dos ensaios e resenhas, e de direitos autorais. Mas hoje acho que vivo basicamente da literatura, que envolve muitas coisas na minha vida. Não tenho salário fixo. É um risco, mas tenho muito mais liberdade… Por isso escrevo e leio mais.

Webwritersbrasil: Viver da palavra escrita no Brasil é uma raridade!

Milton Hatoum: Há um mito sobre o escritor profissional, mas isso depende muito do modo de vida que se leva. Para quem foi professor durante 17 anos, não é difícil viver modestamente. Uma ironia na minha vida profissional é que posso viver até melhor como escritor do que vivia como professor. Posso viver melhor do que 70% dos brasileiros, que ganham um salário indigno e vivem muito mal. Não ambiciono levar uma vida luxuosa. Isso ficou claro quando saí de Manaus ainda jovem. Para escrever, é preciso sacrificar algo.

Webwritersbrasil: Como você relaciona a narrativa curta, com as novas linguagens e com a internet?

Milton Hatoum: Estão surgindo vários contistas. Embora possamos questionar os gêneros literários, não há uma fronteira rígida entre eles. O romance resistiu a todos os questionamentos e crises. Como gênero, exige mais tempo, mais paciência e uma experiência longa. Já o conto, quando a idéia está madura, pode ser escrito em curto espaço de tempo. Por isso, a urgência do momento do escritor pode ser traduzida por uma forma breve.

Webwritersbrasil: Didaticamente, quais são seus conceitos sobre crônica e conto?

Milton Hatoum: Do ponto de vista teórico, há uma bibliografia imensa sobre a teoria do romance, mas sobre o conto, curiosamente, não há muita coisa. Uma das boas definições é a de Júlio Cortázar, que dizia que um conto deve encerrar tensão, intensidade e significação. Tem que contar um drama humano, algo dramático, insólito, uma crise existencial… e tudo de uma forma breve. Cortázar insiste muito na questão da brevidade. Mas esse não é o único ponto. Há contos de uma página e outros de dez, quinze páginas… É aí que a coisa começa a complicar. A diferença da crônica para o conto é que a crônica fala sobre o presente, está muito ligada ao jornal. Ela pode ser poética, como fazia o Rubem Braga, um cronista excepcional! Às vezes, a diferença é muito tênue. É possível percebê-la, mas é difícil precisar qual é. Eu arriscaria dizer que o conto, de alguma forma, conta uma história. A crônica também pode contar… Então, a diferença é o manejo da linguagem e a construção interna da narrativa. O conto visa um desfecho, a crônica não. Ela pode ser apenas a visão de uma cena: um pássaro, um casal namorando, e a poesia que pode ser desentranhada disso. No conto, há também o drama de um personagem. É assim nos grandes contos de Clarice Lispector, de Guimarães Rosa, de Júlio Cortázar, de Anton Tchekhov… O [Willian] Faulkner, por exemplo, tem a tendência de se estender, seus contos não são tão breves, alguns tendem ao relato mais longo, ao romanesco.

Webwritersbrasil: Também acontece isso com seus contos?

Milton Hatoum: Acontece muito! E isso é um problema. A partir de um certo limite – que ninguém sabe dizer qual é, porque não se pode reduzir essa questão simplesmente ao número de páginas – o autor passa a acreditar que aquela história pode render mais, que o personagem pode se desdobrar. Quando isso acontece, o gênero aponta para a novela ou mesmo para o romance. O conto pode se aprofundar, mas sem perder de vista a brevidade, a surpresa. Não deve se perder em digressões, em flashbacks, recursos que o romance pede e até exige.

Webwritersbrasil: Qual a sua experiência com internet? Uma questão polêmica na rede é a dos direitos autorais…

Milton Hatoum: De qualquer maneira, a internet dinamiza e tende a democratizar a informação. Hoje, são milhões de sites e da quantidade sempre surge a qualidade. Tudo que eu quiser saber sobre cefaléia crônica ou sobre um determinado escritor está disponível na rede. Por outro lado, sou meio primitivo, escrevo à mão, depois passo para o computador. Quando escrevi o “Relato”, não usava computador. Passava do manuscrito para a máquina de escrever. Era um inferno. Hoje, isso é inimaginável!

Webwritersbrasil: Descartada a hipótese de que o livro virtual substituirá o impresso, o que você acha dele?

Milton Hatoum: O livro tem mais de 500 anos! Eu vejo a publicação virtual como uma alternativa. No mundo de hoje, é preciso pensarem alternativas. Há verdades políticas que não são ditas na grande imprensa, mas são ditas na internet.  A rede é uma forma democrática de acessar e participar da informação.

Webwritersbrasil: Se a internet é um meio alternativo de publicação, ela pode ser uma saída para o restrito mercado editorial no Brasil?

Milton Hatoum: A internet é uma oportunidade para aqueles escritores, sobretudo jovens, que não conseguem publicar. A web dá ao escritor a chance de ser lido e depois publicado. É uma mediação entre o ineditismo e o livro. Muitas vezes, as editoras não conseguem ler a enorme quantidade de manuscritos que recebem. No início da minha carreira, passei por essa dificuldade também, ainda mais vivendo em Manaus, longe do eixo Rio-São Paulo.

Webwritersbrasil: Como você imagina os formatos e o futuro da literatura virtual?

Milton Hatoum: A literatura virtual pressupõe a substituição do livro pela tela. No futuro, as duas coisas podem conviver em paz. Afinal nós estamos falando de leitura, não importa se ela acontece na tela ou no papel. O desaparecimento do livro é impensável! As formas virtuais já estão incorporadas como elementos da narrativa, mas falar em novos gêneros é um pouco arriscado. Porque os gêneros já foram tão questionados, tão bombardeados… As estruturas fragmentárias, baseadas em aforismos, em recortes, tudo isso já existe há muito tempo, desde [Charles] Baudelaire e mesmo antes. Não são formas desgastadas, mas já são usadas há muito. Mesmo as imagens, o poema visual, o romance com imagens, com fotografias… Nadja, de Breton… Eu não sei que tipo de novidade os recursos eletrônicos trarão. Uma questão relevante é que hoje o computador é uma gráfica e pode imprimir um livro em casa.

Webwritersbrasil: Essa é uma outra revolução sobre a qual pouco se fala… Quais são as suas impressões sobre o texto veiculado na rede, inclusive os neologismos, estrangeirismos, etc?

Milton Hatoum: A gente não deve ter preconceito. A língua portuguesa falada no Brasil é muito maleável e receptiva a todo tipo de influência, neologismos, gírias, estrangeirismos. Não acredito que a internet vá desvirginar a língua… Mas, se for o caso, que deflore de uma vez por todas os cânones, as regras e as normas… Muitos escritores já usaram palavras estrangeiras, desde o modernismo e mesmo antes. Machado não escrevia como Eça, Lima Barreto e os modernistas deram um salto e já estão longe do português normativo de Portugal. Além disso, nenhum idioma vernáculo é puro, não é uma armadura rígida. As línguas, como as culturas, não são impermeáveis, mas miscigenadas. Por isso, esse discurso de alguns ideólogos americanos para separar o Ocidente do Oriente é uma bobagem… O choque de civilizações é um choque de ignorância, além de expressar uma postura ideológica de superioridade de uma cultura sobre outras.

Webwritersbrasil: Há até um lado bom na globalização…

Milton Hatoum: Basta lembrar que o livro “As Mil e Uma Noites” foi traduzido para o francês já no século XVIII e está no imaginário europeu desde então. Cervantes! O primeiro romance moderno [Don Quixote] fala muito da cultura árabe e do grande amálgama de culturas que é a própria Espanha. O vocabulário do escritor não pode ser restrito, limitado. Ele pode usar expressões em inglês, em francês,em latim… A questão é como tudo isso dá coerência ao texto literário, caso contrário pode ser apenas um ato gratuito, artificioso. A linguagem pode ser mais coloquial, mais culta, mais oralizada. No entanto, essas coisas não são lançadas por acaso nem ao léu. Devem ter uma razão de ser, interna à narrativa.

Webwritersbrasil: Como você avalia o mercado editorial no Brasil?

Milton Hatoum: Não acho que existe uma crise absoluta na literatura. Dizem que há uma falta de grandes escritores, mas nós temos alguns grandes! Pelo menos três ou quatro nos anos quarenta, cinqüenta e sessenta. Seria exigir muito que surgissem, logo depois, autores geniais como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. O mesmo vale para a Europa. Quem é o Céline da recente prosa francesa? O Faulkner da ficção norte-americana?

Webwritersbrasil: Mas não há só a questão dos escritores: na outra ponta faltam leitores.

Milton Hatoum: O número de leitores cresceu e o Brasil se modernizou bastante nos últimos trinta anos, mas não sei se o crescimento é qualitativo. Essa questão está sempre ligada à política educacional. Um bom romance pode não alcançar sucesso editorial. Ao contrário, são os livros de auto-ajuda que acabam fazendo sucesso, mas, nesse caso, não estamos falando de literatura. Se olharmos para o mundo, talvez não haja tantos escritores excepcionais no momento.

Webwritersbrasil: Quem são os seus autores preferidos?

Milton Hatoum: Sempre releio Machado, Guimarães Rosa, Proust, Joyce, Kafka. Gosto muito da ficção inglesa, francesa e russa do século 19. É um privilégio ler tradutores-escritores como Modesto Carone, Paulo Bezerra e Boris Schnaiderman. O escritor, a partir de um certo momento de sua vida, volta a ler os grandes livros e aqueles que não teve tempo de ler. Eu prefiro falar em grandes livros a falarem cânones. Essa história de cânone também é um saco! Tudo vira cânone! O ponto de vista e as escolhas “canônicas” vêm dos centros hegemônicos, que ignoram outras literaturas. Uma lista de cânones sem Jorge Luis Borges, Machado de Assis, Guimarães Rosa e Juan Rulfo já é duvidosa. No Brasil há dezenas de escritores de grande importância. Não devemos nada a ninguém, e digo isso sem qualquer ranço de nacionalismo. Cyro dos Anjos, pouco lembrado hoje, é um escritor finíssimo, um machadiano dos mais notáveis… Aníbal Machado também. Isso sem contar os modernistas e três grandes veteranos: Autran Dourado, Raquel de Queiroz e Rubem Fonseca.

Webwritersbrasil: Você se considera machadiano?

Milton Hatoum: Em alguma medida, porque “Dois Irmãos” foi, em parte, inspirado em “Esaú e Jacó”. E também porque Machado é atualíssimo. A ironia, o modo de narrar, o modo sorrateiro e ácido de criticar a ordem social e política, tudo isso é fonte de inspiração.

Webwritersbrasil: Em “Dois Irmãos” tem a questão do fatalismo também.

Milton Hatoum: Alguns leitores acham que “Dois Irmãos” é muito pessimista, que não há saída para nenhum dos personagens. Mas há uma saída, que é a memória, a imaginação e o próprio livro. O narrador recolhe tudo e, no fim, pode contar a história, pode escrever um romance…

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