Banhar-se em água morna pra não se queimar

Alexandre Gennari – Crônicas – Literatura

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No programa “Sempre um Papo” com os escritores Santiago Nazarian e Raphael Montes (10 de junho de 2014 no Sesc Vila Mariana em São Paulo) nos limitamos a ouvir (e ver) um desfile de ideias óbvias e batidas sobre mercado editorial e sobre a trajetória dos autores entrevistados que, afora uma ou outra nuance, muito pouco se diferencia do caminho trilhado por outros autores publicados com êxito (ou relativo êxito).

A burocracia das questões discutidas chegou a dar nos nervos, os entrevistados se limitaram a elencar suas obras e projetos como se fizessem um relatório para seus superiores em uma companhia de seguros (com raros momentos de brilho, sobretudo por parte do Nazarian).

Às vésperas da abertura da Copa do Mundo no Brasil, com assuntos polêmicos e palpitantes pululando nas ruas, em nenhum momento os escritores foram expostos (ou se expuseram) a se posicionarem a respeito de manifestações, greves, polarizações, eleições. Ora, o escritor, antes de tudo, é, ou antes, deveria ser, um pensador de seu tempo, um observador privilegiado de sua gente. Outrora foi assim. Parece-me que muitos dos autores que tem publicado recentemente, pautados pela demanda de serem vistos, movidos pela inevitabilidade da auto-promoção, não sabem mais falar de outra coisa senão de si mesmos e de suas obras e projetos. Acomodaram-se com leitores e jornalistas concupiscentes. Acomodoram-se a divagar sobres seus umbigos, seus espelhos, suas imagens, e de ordinário não são colocados à prova. Raramente correm o risco de incorrer em uma frase mal colocada, uma ideia infeliz, uma polêmica, que poderiam influenciar negativamente nas vendas de seus livros.

Em tempos de Copa do Mundo cabe a comparação com o jogador de futebol moderno. Melhor tocar de ladinho do que arriscar-se numa jogada ousada e perder a posse da bola. O erro ocasiona críticas negativas, indigestas. Posicionar-se pode ocasionar rejeição e discordância. Provocar os entrevistados também. Então, fiquemos com a segurança da mornidão. Ninguém sai queimado.

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