Vestido Vermelho

Alexandre Gennari – Crônicas – Vida de Escritor

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para Thays de Campos

Na vitrine não era mais que um pedaço de pano vermelho. Inanimado como qualquer pedaço de pano. Sem vida, apesar da vida do vermelho, cor de vida e de paixão desmedida. Roupas. O que são sem pessoas? Pedaços de pano costurados assim e assado à espera de corpos e vida.

Mas ela disse “que lindo”, bateu três palminhas como criança diante da loja de brinquedos, e o pedaço de pano vermelho tornou-se vestido vermelho, e o vestido vermelho começou ali a virar gente.

Voltei na loja uma semana depois e o vestido vermelho não estava mais lá, cuidadosamente exposto na vitrine à espera de um corpo de mulher que o fizesse se transformar em sonho rubro de mulher, em fetiche de homem (ou de mulher mesmo, não importa). Entrei na loja e perguntei dele à vendedora. “Eu sabia que você ia voltar”, ela disse, segura de si, como se me conhecesse havia anos. “Olhei em volta. Era comigo mesmo a conversa aparentemente sem cabeça, membros e corpo. “Eu?” “Sim. Quando uma mulher olha daquele jeito pra um vestido e um homem olha daquele jeito pra uma mulher… eu já sabia que o vestido ia ser de vocês…” “Nosso? Eu não uso vestido,” respondi, abestalhado, como costumo fazer quando não sei o que dizer, quando sou pego em flagrante. “Usa sim. Vai usar mais do que ela.” Pegou o vestido numa prateleira. “Tá aqui. Guardado pra ela… Pra você.”Achei a vendedora uma bruxa. Se pudesse queimava ela numa fogueira bem grande. E quente. Comprei.

Quando entreguei o presente, ela deu um grito quase infantil de surpresa e contentamento, soltou sua melhor risada, que me faz querer ser sempre um palhaço, e voou no meu pescoço com o carro em movimento, beijou minha boca com uma paixão que me fez pensar, por um segundo: “essa mulher está apaixonada por mim”. Mordeu meu lábio de um jeito que eu simplesmente adoro, que me faz perder a razão e me provoca constrangedoras ereções públicas só de lembrar.

Mas o vestido ainda era só um vestido vermelho, que saíra da vitrine pra caixa de presente e da caixa pras mãos dela, que acariciavam o pano macio do jeito que eu gostaria que ela acariciasse meu rosto, minhas mãos, meu peito. Passou o vestido no rosto e disse que o que a fazia feliz não era o vestido, mas o cuidado.

Mas o futebol é uma caixinha de surpresas. O amor também. Pensei que o jogo estava ganho. Não estava. Achei que nunca a veria no vestido vermelho. Demorou algo parecido com uma vida até que isso acontecesse. Mas aconteceu. O jogo virou. Por São Jorge! Por Tutatis! Aconteceu. Foi numa noite fria de domingo. Ela usava um sobretudo longo, meias de seda, sapatos de salto. Andamos pelas ruas do centro de São Paulo, entres africanos, mendigos, nóias, prostitutas, travestis. E entre gente comum também, como nós. Tomamos um taxi. Só quando chegamos à festa e ela tirou o sobretudo, foi que vi o vestido no corpo dela, vermelho de paixão, vivo, realizado em seu sonho rubro de vestido, finalmente, torneando as formas dela, o corpo magro e esguio, os ombros suportando os cabelos longos e claros, suas formas que eu podia adivinhar debaixo daquela vermelhidão, o pano suave que eu tocara com cuidado na loja da bruxa, tocando o corpo dela agora, roçando a pele muito branca, fazendo carinho nela a cada movimento mínimo que ela fazia. Óbvio1: Quis ser o vestido. Óbvio2: Quis levantar o vestido. E me lembrei da bruxa: “Eu sabia que esse vestido ia ser de vocês.” E tive vontade de voltar na loja e perguntar: “E a moça, vai ser minha também?” “Pergunte ao vestido,” talvez a bruxa dissesse…

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2 respostas para Vestido Vermelho

  1. Ana Gennari disse:

    sensacional!

  2. Maria Angélica Cunha disse:

    Adorei!!!

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