Uma crônica de Vinícius de Moraes

Literatura – A Arte da Crônica (crônica comentada)

 

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A Casa materna
Vinícius de Moraes   

Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna (1). As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.

É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem (2). Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas (3). Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar (4).

A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta, de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para quartos cheios de sombra. Na estante junto à escada há um Tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial (5) primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema da beleza: o verso.

Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória (6). Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta — pois não há lugar mais propício que a casa materna para uma boa ceia noturna. E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna, sabe por que queima às vezes uma vela votiva. E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia.

A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola (7). Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais mais unidas em torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis.

texto extraído do livro “O melhor de Vinícius de Moraes” – A reprodução deste texto tem fins exclusivamente didáticos.

Notas: (1) Tom confessional. Recordações – (2) Conversa fiada: Conta sobre a casa como se batesse papo com o leitor – (3) Toque de poesia e lirismo do poeta-narrador – (4) Flagrante de um fato banal com injeção de sangue novo pelo cronista – (5) Embora não narre na primeira pessoa, o leitor sabe que o cronista é o narrador e personagem de si mesmo – (6) Embora narre o circunstancial, a descrição ganha ares de ficção – (7) As pessoas ganham força de personagens ficcionais e a narrativa transcende o factual.

Comentários: “Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo a prosa fiada, como faz o cronista…” dizia Vinícius. E é como conversa fiada que todos os assuntos são possíveis neste gênero literário, no diálogo entre pessoas. Mesmo que o narrador não se coloque na primeira pessoa dirigindo-se a um interlocutor, a idéia de diálogo deve permanecer. Segundo Vinícius, “o cronista deve injetar um sangue novo em um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário”. A narrativa curta se vincula ao jornalismo, dele extraindo suas características principais. Algumas vezes o escritor terá tempo para reescrever seu texto; outras terá de elaborá-lo com a rapidez dos jornalistas, mas com uma preocupação estética ausente na reportagem. Já que o cronista não tem o tempo do ficcionista, deve impor-se o ato de escrever. Para Vinícius, não há uma característica regional: Há marcas registradas e várias poéticas, tudo ligado a um só gênero considerado não-ficcional e que se engrandece ao romper seus limites alcançando a ficção. (Por Alexandre Gennari)

Fonte: Este texto foi elaborado à partir dos estudos de Jorge de Sá sobre a crônica como gênero literário, parte integrante do livro “A Crônica” – Editora Ática – Série Princípios.

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4 respostas para Uma crônica de Vinícius de Moraes

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  2. Raquel Unfer disse:

    Ao ler esta crônica fui transportada em pensamento aos meus tempos de infância. O dom que nosso saudoso Vinicius de Moraes possuia de conseguir levar seus fãs a viver…é isto, é como se vivessemos aquele momento, sendo ouvindo seus versos em música, ou lendo suas crônicas.
    Todos com um toque de romantismo e muita sensibilidade.

  3. Ale Gennari disse:

    Poesia em prosa, Raquel. Um ícone do gênero crônica, como foi da música e da poesia. Precursor do conceito multímídia, né?

  4. Carol disse:

    Preciso de duas Cronicas do Vinícius de Morais, alguém pode me passar? OBG

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