Uma crônica de Rubem Braga

Literatura – A Arte da Crônica (crônica comentada)

O Homem e a Cidade
Rubem Braga 

Agora, que não preciso mais ir à cidade todo dia, descubro um prazer novo em andar por essas velhas ruas do centro onde tanto vaguei outrora.

E pego um estranho dia de verão: há um alto nevoeiro aéreo sob o céu azul, mas o vento espanta alegremente as nuvens esgotadas de chover; o ar é fino, a luz é clara, a manhã é assanhada, com uma alegria de convalescente que pela primeira vez, depois de longa doença, sai a passear entre as árvores (1), o mar e as montanhas azuis.

Parece que estamos em maio ou setembro, num desses dias cambiantes e leves em que as folhas têm um brilho mais feliz. E sinto prazer em andar pela calçada larga da Rua do Passeio, em espiar as grandes vitrinas coloridas de presentes de Natal (2). (Não quero comprar nada, não preciso ganhar mais nada, não é verdade que recebi na minha porta a graça juvenil de uma rosa amarela?)

A calçada está cheia de gente, e é doce a gente se deixar ir andando à toa. Na Rua Senador Dantas vejo livros, camisas, aparelhos elétricos, discos, fuzis submarinos, gravatas; e os cartazes dizem que tudo é muito barato e fácil de comprar, os cartazes me fazem ofertas especiais para levar agora e só começar a pagar em fevereiro… Muito obrigado, muito obrigado, mas não preciso de nada. Entretanto, gosto de ver essa fartura de coisas: fico parado numa porta de mercearia contemplando reluzentes goiabadas e frascos de vinho, bebidas e gulodices de toda a espécie que vieram de terras longes se oferecerem a mim.

Mas de repente houve alguma coisa (3)  — a visão de um muro, o som de uma vitrola distante, algum rosto no meio da multidão? — alguma coisa que me devolveu ao meu ser antigo (4). Sou um rapaz magro nesta mesma rua, sou o verdadeiro estudante de 1929 e talvez cruze uma esquina, sem conhecê-la ainda, aquela que há de ser a minha amada, e tire do bolso a minha carteirinha da Faculdade para ter direito ao abatimento do cinema. Mas logo, por um instante, sou o homem dramático e silencioso de 1938, e caminho carregado de angústia por essa calçada que, entretanto, é a mesma de hoje — há o vento palpitando nos vestidos coloridos de mulheres finas que sorriem com dentes muito brancos entre os lábios úmidos. E vou andando, tomo um café, sinto uma grande ternura pela cidade grande onde outrora te amei tanto, tanto, oh! para sempre perdida Lenora.

Lenora… E me dá uma humildade entre o povo, completo o dinheiro da entrada de um menino que quer ir ao cinema, espero um bonde, ajudo uma senhora gorda a subir com seu embrulho, ela agradece e sorri, é cinqüentona e pobre, mas seu sorriso é bom, ela e eu somos cidadãos da mesma cidade (5) e antes de saltar ela me desejará boas entradas. Vem o condutor, tem cara de alemão e é gordo, mas ágil e paciente, todos pagam sua passagem na boa ordem civil e cordial. Um homem conduz uma gaiola dentro do bonde, todos querem ver o passarinho — é um pintassilgo, diz ele.

Quieto, vou repetindo sem voz, para mim mesmo, teu nome, Lenora — perdida, para sempre perdida, mas tão viva, tão linda, batendo os saltos na calçada, andando de cabelos ao vento dentro de minha cidade e de minha saudade (6), Lenora.

texto extraído do livro “Ai de ti Copacabana” – A reprodução deste texto tem fins exclusivamente didáticos.  

Notas: (1)  Breve momento que faz parte da condição humana – (2)  Flagrante do cotidiano da cidade e do tédio urbano – (3)  Começou com um tema e acaba conduzindo o leitor a outro mais complexo – (4)  Recordações. Recompõe a própria história – (5)  Interpreta a realidade para o leitor – (6)  Cuidado poético de encaixar as palavras na frase enriquecendo o conteúdo e o sentido.

Comentários: Elegeu a crônica como seu foco literário, em detrimento de outros gêneros. Seu estilo se caracteriza por uma construção ágil, direta, sem adjetivações; pelo despojamento verbal e pelo hábito de escrever eliminando excessos. Capta os pequenos momentos que compõem a condição humana: Nossas dores e alegrias. Com sensibilidade aguçada torna-se o intérprete da realidade para o leitor. Braga explora a polissemia das palavras encaixando-as na frase como quem pinta um quadro. Sabe que sua situação particular só vale para o leitor na medida em que funciona como uma metáfora de situações universais, o que permite que façamos da leitura uma forma de catarse e empatia. Recompor a própria história é um modo do cronista nos ensinar a compor a nossa história. A memória da infância é quase sempre o suporte da estrutura narrativa de Braga. O tédio urbano determina a atmosfera melancólica de vários textos em que ele recupera o menino da roça em contato com a natureza. Outro recurso é reproduzir a estrutura das conversas informais. Começa falando de um tema e conduz o leitor a outro tema bem mais complexo. (Por Alexandre Gennari)

Fonte: Este texto foi elaborado à partir dos estudos de Jorge de Sá sobre a crônica como gênero literário, parte integrante do livro “A Crônica” – Editora Ática – Série Princípios.

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