Uma crônica de Carlos Drummond de Andrade

Literatura – A Arte da Crônica – Crônicas Comentadas

 

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No lotação
Carlos Drummond de Andrade

Com o advento dos rádios transistores, o esporte, os fuxicos internacionais e a música popular passaram a ser nossos companheiros de viagem no ônibus e no lotação. Por isso não estranhei ao ouvir, em surdina, “areia da praia branquinha, branquinha, o vento levou o amor que eu tinha”. Olhando por olhar, não vi aparelho receptor junto ao ouvido do rapaz que se sentara a meu lado, e era junto de mim que a canção abria suas pétalas (1). O rapaz — moreninho, magro, terno escuro bem passado, de pobre caprichoso — tinha o rosto voltado para a rua, sua boca mal se entreabria. Cantava para fora do veículo e para dentro de si mesmo. Parecia ausente, perdido talvez em extensa praia de areia alva, à procura de marcas de pés desaparecidos.

Depois, cantou “se mil vezes você me deixar e voltar, eu aceito”, e o fez um pouco mais alto. Passageiros viraram o pescoço para ver de onde se exalavam essas falas de amor. Não queriam acreditar que alguém cantasse no interior do lotação. Rádio se tolera. Mas voz humana, próxima, direta? Dois deles fumavam, perto da inscrição que proíbe expressamente fumar no recinto, sob pena de multa. É tão natural desobedecer a uma proibição, como absurdo fazer alguma coisa que não desobedece a nada (2), mas não foi expressamente permitida: esta, sim, é a verdadeira, sutil infração. O rapaz cantava, sem proibição escrita. Era quase um fenômeno.

Sem dúvida, no espírito de alguns passou a idéia de reclamar. Mas sempre se espera que alguém o faça por nós. Havia o medo do ridículo, a possibilidade de um incidente desagradável. Dizer que o rapaz estava perturbando o sossego dos passageiros seria demais. Que sossego? A viagem é cheia de rangidos, trancos, finos, freadas bruscas, berros de outros motoristas. Ele cometia uma ação inusitada, mas indefinível. Cantava. Cantava por si, talvez por nós, que não sabemos ou temos vergonha de cantar. Até que não cantava mal. “O amor, meu bem, não diz quando vem nem manda avisar ao coração.” Não podendo fazer nada contra o rapaz, uns sorriam, esse sorriso superior dos que sabem que não é direito cantar no lotação, mas que toleram, em nome da boa educação, a falta sonora de educação (3). Só as mulheres ficaram hirtas e neutrais como se não estivessem ouvindo nada, e portanto não fossem obrigadas a tomar atitude. É admirável nas mulheres esse fazer-de-conta, que lhes confere uma dignidade facial absoluta diante daquilo que elas não sabem como interpretar.

O cantor continuava a exalar o seu cancioneiro de penas de amor, de esperanças e juras cálidas (4). Sempre alheio à reação dos companheiros de viagem, sempre olhando para a rua ou para além da rua, variando de letras. No Flamengo, calou-se (5). Tirou o cigarro, acendeu-o devagar, as pessoas começaram a sentir a estranheza do silêncio (6), afinal não era mau ir para o trabalho ouvindo uma voz razoável falar de ternuras e praias enluaradas. Mas seria arriscado pedir-lhe que continuasse. Ele preferiu assobiar uma das músicas. Não era a mesma coisa. Terminado o cigarro, voltou a cantar, sério, longínquo.

Ao descer no Castelo, tive vontade de tocar-lhe no braço e dizer-lhe: “Obrigado, amigo” (7). Lembrei-me, porém, daquele grego de “Nunca aos domingos”, que dançava pelo prazer de dançar, e não admitia aplausos. Saí, com a cara mais indiferente do mundo.

Texto extraído do livro “Cadeira de balanço” – Nota: A reprodução deste texto tem fins exclusivamente didáticos.

Notas: (1) Jogo de imagens – (2) Crítica direta e indireta aos costumes – (3) Humor refinado. Ironia – (4) Toque de poesia e lirismo – (5) Carioca. O homem e sua cidade – (6) Registra sensações – (7) Ao narrar o mundo o cronista narra a si mesmo.

Comentário:A poesia está presente, não só nas crônicas de Drummond, mas em tudo que ele escreve, seja em forma de poema ou narrativa curta. Como cronista-poeta, Drummond não inventa sensações, mas as registra, usando seus recursos estilísticos (a síntese, o ritmo adequado, o jogo de imagens e um humor refinado), sempre consciente de que a crônica oscila entre o visto e o imaginado. Como na poesia, a crônica também ensina que o homem se encontra no que está fora do homem. Ao narrar o mundo, o cronista narra a si mesmo. Alguns estudiosos da narrativa curta acreditam que a crônica é um gênero tipicamente carioca. Em um de seus livros há um capítulo chamado “Cariocas”, no qual o fator que motiva os textos é a relação entre o morador e sua cidade. Particularizando o Rio, Drummond mergulha no mesmo mar de significados: O ser humano tentando compreender o mundo à sua volta à partir da sua própria relação com outros seres, objetos e fatos, por mais transitórios que sejam. (Por Alexandre Gennari)

Fonte: Este texto foi elaborado à partir dos estudos de Jorge de Sá sobre a crônica como gênero literário, parte integrante do livro “A Crônica” – Editora Ática – Série Princípios.

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14 respostas para Uma crônica de Carlos Drummond de Andrade

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  2. Amilton Junior disse:

    Simplismente um deleite, ler essas maravilhosas palavras, colocadas tão apropriadamente pelo incrível Carlos Drummond de Andrade, q mostram como ser humano, como respeitar e viver nossa existência.

  3. Laiane Monteiro disse:

    Sempre mando pros meus EX:

  4. ana gennari disse:

    Que ótimo! Quem canta seus males espanta.A escrita é tão mágica, que parece que estamos no onibus também!
    Drummond teve a sorte de viver num tempo, onde se cantarolava musicas lindas e de qualidade.

  5. Sangelo disse:

    GOSTEI MUITO DA CRÔNICA, ACHO QUE ELA RETRATA UMA REALIDADE VIVIDA POR MUITOS BRASILEIROS, E TAMBÉM MOSTRA COMO OS PASSAGEIROS CONTORNAM ESSA SITUAÇÃO,COM MUITA ALEGRIA, DO JEITO QUE O BRASILEIRO SABE.

  6. jamilys disse:

    vou usar para um seminario na escola

  7. Neide Gomes da Silva disse:

    Maravilhosa, como tudo que Carlos Drummond escreveu.

  8. joan disse:

    usei a cronica para um trabalho tirei 9.5. gostei muito.

  9. gessika disse:

    adoreiiiii

  10. dayane disse:

    gosto muito das cronicas de carlos drummondi de andrade ele e muito inteligentide mais eu adoro as cronicas dele

  11. Ednardo Tomaz disse:

    as cronicas dele e muito masa esa no lotacao e tudo de bom gostei muito

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